Nossas provas, nossas escolhas?
Habitando um planeta de expiações e
provas com ampla maioria de espíritos imperfeitos encarnados, concebe-se que possa
nos interessar saber como se estabelece, para cada espírito, suas provas e
expiações.
Não por outra razão, Allan Kardec
estudando a dinâmica da vida espírita dirigiu, aos espíritos superiores no
Livro dos Espíritos, algumas questões sobre a escolha das provas e julgo interessante
que aprofundemo-nos um pouco mais nesses estudos para melhor compreensão.
Antes, porém, desejo apresentar, para
os nossos assíduos e atentos leitores, uma particularidade a respeito da forma
como os conceitos e as revelações feitas pelos espíritos superiores a Kardec,
bem como suas consequências, foram realizadas. Útil para todos aqueles que
estudam ou que pretendem conhecer o espiritismo, está observação muito
auxiliará.
Enfaixada em cinco obras básicas, Kardec
não pretendeu esgotar todo o assunto nem dizer a última palavra sobre o Espiritismo,
como ele mesmo referiu-se em O Evangelho Segundo o Espiritismo por mais de uma
vez. Afinal, como ciência do infinito, a doutrina espírita é um conjunto de
informações, de ideias, conceitos e revelações os quais, existindo em
todas as épocas, dizem respeito ao Criador e sua criação nas mais diversas
fases evolutivas desta última.
Aliás, o próprio Jesus, já nos
informara que não poderia falar sobre todas as coisas porque nós não
suportaríamos, ou seja, não teríamos entendimento para elas. Quase dezenove
séculos após a encarnação de Jesus sobre a Terra, não seria, como não foi
possível, que a criatura humana, houvera conquistado, neste curto período, toda
a ciência e todo o saber a respeito do Universo a fim de poder receber, na sua
plenitude, toda a Verdade.
Infelizmente, o que temos visto em
relação à nossa capacidade de entendimento e aplicação das lições e dos
ensinos de Jesus, é comparável a uma criança que inicia seus primeiros passos
na escola infantil.
Quero dizer que, ainda que a doutrina
espírita tenha vindo com a função de relembrar conceitos aprendidos, tornar
mais claro os ensinos e as lições do Mestre e acrescentar novos ensinamentos, é
necessário que aprendamos e saibamos entender os textos espíritas,
principalmente para não assumirmos posturas dogmáticas.
Vejamos um exemplo na questão 258 de O
Livro dos Espíritos para nosso entendimento que, inclusive, versa sobre o
assunto da escolha das provas:
258. Quando na erraticidade, antes de
começar nova existência corporal, tem o Espírito consciência e previsão do que
lhe sucederá no curso da vida terrena?
R. “Ele próprio escolhe o gênero de
provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio. ”
Claramente a resposta nos induz a
raciocinar e a entender que a escolha das provas, às quais passamos na
existência terrena, cabe ao próprio espírito fazê-la. O que precisa ser
compreendido é que os espíritos apresentaram, como em outras diversas
oportunidades na obra da codificação, a informação geral sobre o assunto em
pauta, não sendo possível tratar de todas as particularidades e especificações para
cada caso, que muitas vezes não eram ou não foram possíveis de serem
apresentadas, neste primeiro momento, pelo apóstolo da revelação humana.
E nem que ele quisesse não seria
possível, enfeixar, em apenas cinco obras, todo o conhecimento universal para a
criatura humana, habitando um planeta de expiações e provas. Daí a coerência do
caráter dinâmico da doutrina em seus aspectos científico, filosófico e
religioso.
Continuando o raciocínio, passemos a estudar a
pergunta 262 da obra básica referida, que ainda está abordando a temática da
escolha das provas, e que segundo deduzimos da questão 258, fica à critério do
espírito realizar.
262. Como pode o Espírito, que, em sua origem,
é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com
conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?
R. “Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe
o caminho que deve seguir(*), como fazeis com a criancinha. Deixa-o, porém,
pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve,
senhor de proceder a escolha e só
então, é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por
desatender os conselhos dos bons Espíritos. A isso é que se pode chamar a queda
do homem.
O entendimento desta questão
262 parece ser contrária ao que foi afirmado na 258, entretanto, uma melhor
análise nos conduz a perceber que se trata, na verdade, de um desdobramento da
questão 258.
A resposta dada pelos
espíritos “altera” e confere plena coerência ao entendimento do assunto
debatido. Ou seja, nem todos os espíritos apresentam condições mentais e
evolutivas para empreender, de forma justa e que lhe propicie mais amplo
aproveitamento, a escolha das provas que necessite.
Portanto, não há, como não
deve haver, uma liberdade irrestrita e ilimitada aos espíritos no tocante as
escolhas das provas, notadamente aos de mente ainda pouco desenvolvida em seu
aspecto intelectual e moral. Embora esta liberdade seja um direito a que toda
alma possa invocar, somente lhe será concedida quando compreenda o dever e o
pratique.
Posteriormente, com o melhor
desenvolvimento da razão e do seu entendimento, (e haja reencarnações para
tanto) é que, gradualmente, o espírito poderá fazer suas escolhas.
Quando bem analisada, a
reflexão sobre este conhecimento traz luz sobre o controvertido aspecto do
planejamento reencarnatório, assunto que pretendemos abordar em futuro artigo neste
Blog.
Para finalizar de modo
brilhante, trazemos a participação de Emmanuel em breve trecho da lição
“Escolha de provas”, que consta no livro Nascer e Renascer da psicografia de
Chico Xavier.
“Assim, além da desencarnação,
nem todos desfrutam de improviso a faculdade de escolher o lugar ou a
situação em que deva prosseguir no esforço de evolução, porquanto, quase
sempre, é imperioso o regresso às sombras da retaguarda para refazer com
sofrimento e lágrimas, amargura e sacrifício o ensejo perdido de acesso à luz.
Se desejas a marcha vitoriosa para lá dos portais de cinza em que se nos renova
a visão espiritual, afeiçoa-te, com perseverança e lealdade, ao
próprio dever, dele fazendo o pão espiritual, cada dia, porque para
alcançar o triunfo e a elevação de amanhã, é indispensável consagrar-lhes a
nossa atenção desde hoje.”
Emmanuel, venerável
espírito, dando a “dica” de que a escolha das provas e até planejamento
reencanratório, de certa forma, a gente faz é hoje, pouco a pouco, através de
nossas ações cotidianas.
(*) Todos os
grifos são nossos
Referência
(1) Kardec, Allan. O Livro dos
Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed. Brasília.
Editora FEB, 1944. 494p.
(2) Emmanuel. Nascer e Renascer. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª
ed. Brasília. Editora FEB, 1982. 96 p.
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