segunda-feira, 31 de março de 2025

 

Singela homenagem a Allan Kardec

No dia 31 de março de 1869, numa fria manhã de quarta-feira, entre 11 e 12 horas, desencarna, pela ruptura de um aneurisma cardíaco, Allan Kardec.

 Desde 1854, quando desperta o gigante para tarefa que lhe havia sido confiada por Jesus Cristo e após 15 anos de ininterrupto trabalho dedicados à tarefa da codificação, retorna à pátria espiritual com cabal cumprimento de sua missão.

Oportuno destacar, nesta vida luminosa de incessante labor do Mestre Allan Kardec, um relato, que consta nas obras “Chico Xavier à sombra do abacateiro” e “100 anos de Chico Xavier” organizadas por Carlos Baccelli.

O referido episódio, narrado por Chico Xavier, nos revela quando Kardec desejou criar aquela que seria a primeira livraria espírita do mundo.

Era princípio do ano de 1869, nos primeiros três meses do ano, Kardec e seus companheiros trabalhavam intensamente com esta ideia, quando nos últimos dez dias do mês de março, Kardec começou a sentir as dores no peito como prenúncio da sua próxima desencarnação.

Pressentindo este momento, provavelmente, o codificador dirige-se a sua esposa, Amélie Gabrielle Boudet, desta maneira:

 

- Gabi eu me sinto indisposto, com muita dor no peito, mas a inauguração da livraria espírita está prevista para o dia primeiro de abril; faltam 5 dias por arranjar tudo para uma inauguração tão distinta quanto possível. Eu não me sinto bem, mas no dia primeiro de abril eu tenho que inaugurar a livraria.

 

Dona Gabi que além de esposa nutria por Kardec um desvelo também maternal, obtemperou:

 

- Mas se você estiver com essa dor muito aumentada, podemos deixar para outra semana, daqui a uns quinze dias.

 

Kardec se mostrava muito preocupado com os companheiros que já haviam iniciado as viagens para Paris para cumprirem este compromisso. Fácil de entender esta preocupação, pois naquela época, as viagens não eram fáceis, sendo as mesmas feitas a cavalo.

Notemos o lúcido diálogo que se desenrolou entre ambos:

 

- Eu não posso desconsiderar os esforços e o dinheiro que os irmãos gastaram para virem até aqui.

- Apesar disso tudo eu aconselharia você a adiar - insistiu D. Gabi.

- Você me aconselha a adiar e se eu estiver muito mal no dia primeiro de Abril ou que até tenha mesmo desencarnado, já que estamos numa doutrina de caridade, o que é que você fará por mim, se eu estiver incapacitado de ir até ao local da Livraria, já que a inauguração está prevista para as 10 horas. Não podemos fazer os outros esperarem, isso também é caridade.

- Já que sua decisão é tão firme, no caso desse ato de inauguração se você piorar…

- E no caso de eu desencarnar?

- Mesmo assim, se você piorar ou desencarnar eu irei no seu lugar.

 

No dia 31 de março ele desencarnou, e no primeiro dia do seu velório, em 1o de Abril, às 8 horas da manhã, Dona Gabi despediu-se do corpo do esposo e disse a ele que ia cumprir a sua tarefa. Pediu-lhe desculpas por se ausentar da casa e foi para o local da inauguração. 

Amélie Gabrielle Boudet inaugurou a livraria, sem lágrimas, sem lamentações, naturalmente que, com o coração arrasado de dor, mas presente, cumprindo o prometido.

Chico arremata a emocionante e comovente narrativa, revelando que este episódio, havia sido lido em francês para ele, pelo Dr. Canuto Abreu.

Chamado por Camille Flammarion, em seu discurso diante do túmulo do codificador, como “o bom senso encarnado”, Kardec partiu para a pátria espiritual sendo recebido por familiares e amigos de luta que ombrearam com ele no trabalho da codificação da doutrina, além do Espirito da Verdade, que veio recebê-lo, conduzindo-o até Jesus, preparando-o para encarnação que já vinha próxima, na personalidade de Francisco Cândido Xavier.

Uma missão como a delegada a Kardec, não poderia ser concluída numa só existência. Fato é que as bases da doutrina estavam lançadas e bem fixadas, assim como o propósito de restauração do Cristianismo havia sido realizado com total êxito.

Neste dia 31 de março de 2025, cento e cinquenta e seis anos após a desencarnação de Hippolyte Léon Denizard Rivail, nosso Mestre Allan Kardec, desejamos que a sua trajetória continue sendo muito iluminada pela luz que já traz consigo e que Jesus, nosso amoroso Governador espiritual da Terra, o abençoe, hoje e sempre.

Referências

(1) Baccelli, Carlos A. À sombra do Abacateiro. 1ª ed. Editora IDEAL, 1986. 176p.

(2) Baccelli, Carlos A. 100 anos de Chico Xavier. 1ª ed. Editora DIDIER, 2020, 464p.


segunda-feira, 24 de março de 2025

 

Casa bendita do espírito

“Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela. Desatender as necessidades que a própria Natureza indica, é desatender a lei de Deus. Não castigueis o corpo pelas faltas que o vosso livre arbítrio o induziu a cometer e pelas quais é ele tão responsável quanto o cavalo mal  dirigido, pelos acidentes que                                                                                                        causa”.                 Evangelho segundo o Espiritismo – Cap. XVII – Sede Perfeitos                                                   

Oportunos ensinamentos colhemos nas obras espíritas alusivas à formação do veículo material que reveste o espírito. Antes de individualizar-se em Espírito, o princípio inteligente, plasma no plano terrestre e no extraterrestre, vagarosamente, ao longo dos milênios, as conquistas, que mais tarde se notabilizam na vestimenta física, sublime instrumento do ser pensante, apropriado ao crescimento evolutivo.

Em vista disso, o corpo físico, refletindo o perispírito, que o modela, pode ser considerado a veste mais exterior do espírito. O conceito, bem desenvolvido no Espiritismo, de que o perispírito é o modelo organizador biológico do corpo físico, assim como, o carro físico, imprime naquele as marcas dos desequilíbrios que a si mesmo provoca, traz profundas consequências.

Crimes como o aborto e o suicídio, dentre outros, imprimem desajustes perispirituais, e estes refletirão sobre o corpo físico originando variados males, caracterizando as futuras reencarnações retificadoras. Ou seja, o corpo é o abençoado escoadouro das nossas mazelas e imperfeições, indicando-nos, quase sempre, onde se encontram nossas fragilidades. Enxerguemos, deste modo, que os males do corpo que tanto nos afligem, de fato, quando nos visitam, são o prenúncio da cura.

Na antiguidade, por acreditar que o corpo fosse responsável por todos os vícios e males que acometiam a criatura humana, homens se autoflagelavam a fim de buscar purificação. Seria algo como atribuir a responsabilidade pelo acidente de um carro desgovernado ao próprio veículo e não ao motorista.

No atual estágio evolutivo, para a sustentação do corpo físico, o homem é levado a observar cuidados como: alimentação, trabalho, repouso, viver de forma saudável e sem vícios, higiene física e cultivar nobres pensamentos e sentimentos.

Mas não guardemos a tola ilusão de que a longevidade do arcabouço físico à custa de existência saudável e equilibrada, embora recomendada, possa nos guardar das garras afiadas da morte, sendo muito mais racional encararmos que no mundo, somos nada mais que inquilinos do corpo.

 À medida que evolui, o espírito, residindo em planos mais elevados, se reveste de corpos mais sutis isentando-se das doenças próprias dos espíritos que vivem em planos de matéria mais densa como a Terra. 

Aliás na questão 677 de O Livro dos Espíritos os espíritos superiores esclarecem que:


“o trabalho do homem visa duplo fim: a conservação do corpo e  o desenvolvimento da faculdade de pensar” 

Como se vê, quem não trabalha, perde importante estímulo para desenvolver a inteligência e não favorece a conservação do corpo.

É comum somente valorizarmos uma dádiva bendita, depois que ela nos escapa das mãos. Neste aspecto, comumente quando exibimos mais ampla saúde ou adquirimos prosperidade social e/ou financeira e somos visitados por certas enfermidades que nos inutilizam a marcha ou somos abordados pela morte, é que atribuímos ao corpo físico a importância que ele merece.

Chico Xavier, do livro O Evangelho de Chico Xavier, de forma humilde e sublime, apresenta esse divino instrumento, na forma do amigo alterado:


“Eu sempre dispus de um companheiro que me auxiliou nos momentos difíceis da vida. Ele estava sempre pronto a me auxiliar, a me estender as mãos… Eu estou espiritualmente na melhor saúde e no meu melhor bom humor possível, conquanto a minha indigência. Mas esse amigo mudou bastante e eu tive de levá-lo ao médico. Tive de fazer exames e os exames vieram com algum comprometimento… Se quero me sentar, ele quer a cama, se me levanto, ele quer se sentar; se quero ir a algum lugar, ele tem dificuldade em me acompanhar… Esse amigo já ultrapassou os 70 janeiros… Ele quer a cadeira de balanço… E eu lutando com esse amigo. Não tenho podido estar com os meus amigos, como eu queria. Estou pedindo tolerância, perdão, paciência e bondade de todos, porque esse amigo está na condição de um obsessor pacífico ou amigo alterado. Esse amigo alterado é o meu corpo…”

Cientes de que o corpo físico, concedido por Deus à feição de perfeita máquina divina, reveste o espírito em conformidade com as nossas conquistas e defecções ao longo das vidas sucessivas, ele deve ser valorizado pelo nosso esforço constante, nos conduzindo à aquisição das virtudes iluminadas para a vida eterna. 

Oportuno recordar, que para cumprirem a existência na Terra, tanto Hitler, grande algoz da Humanidade, quanto Jesus, o Mestre do coração, vestiram um corpo de carne e osso.

(*) Todos os grifos são nossos

Referências

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

(2) Baccelli, Carlos A. O Evangelho de Chico Xavier. 1ª ed. Editora Casa Editora Espírita “Pierre-Paul Didier”, 2000. 171p.

 

segunda-feira, 17 de março de 2025

 

Nossas provas, nossas escolhas?

 

Habitando um planeta de expiações e provas com ampla maioria de espíritos imperfeitos encarnados, concebe-se que possa nos interessar saber como se estabelece, para cada espírito, suas provas e expiações.

Não por outra razão, Allan Kardec estudando a dinâmica da vida espírita dirigiu, aos espíritos superiores no Livro dos Espíritos, algumas questões sobre a escolha das provas e julgo interessante que aprofundemo-nos um pouco mais nesses estudos para melhor compreensão.

Antes, porém, desejo apresentar, para os nossos assíduos e atentos leitores, uma particularidade a respeito da forma como os conceitos e as revelações feitas pelos espíritos superiores a Kardec, bem como suas consequências, foram realizadas. Útil para todos aqueles que estudam ou que pretendem conhecer o espiritismo, está observação muito auxiliará.

Enfaixada em cinco obras básicas, Kardec não pretendeu esgotar todo o assunto nem dizer a última palavra sobre o Espiritismo, como ele mesmo referiu-se em O Evangelho Segundo o Espiritismo por mais de uma vez. Afinal, como ciência do infinito, a doutrina espírita é um conjunto de informações, de ideias, conceitos e revelações os quais, existindo em todas as épocas, dizem respeito ao Criador e sua criação nas mais diversas fases evolutivas desta última.

Aliás, o próprio Jesus, já nos informara que não poderia falar sobre todas as coisas porque nós não suportaríamos, ou seja, não teríamos entendimento para elas. Quase dezenove séculos após a encarnação de Jesus sobre a Terra, não seria, como não foi possível, que a criatura humana, houvera conquistado, neste curto período, toda a ciência e todo o saber a respeito do Universo a fim de poder receber, na sua plenitude, toda a Verdade.

Infelizmente, o que temos visto em relação à nossa capacidade de entendimento e aplicação das lições e dos ensinos de Jesus, é comparável a uma criança que inicia seus primeiros passos na escola infantil.

Quero dizer que, ainda que a doutrina espírita tenha vindo com a função de relembrar conceitos aprendidos, tornar mais claro os ensinos e as lições do Mestre e acrescentar novos ensinamentos, é necessário que aprendamos e saibamos entender os textos espíritas, principalmente para não assumirmos posturas dogmáticas.

 

Vejamos um exemplo na questão 258 de O Livro dos Espíritos para nosso entendimento que, inclusive, versa sobre o assunto da escolha das provas:

 

258. Quando na erraticidade, antes de começar nova existência corporal, tem o Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da vida terrena?

 

R. “Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio. ”

 

Claramente a resposta nos induz a raciocinar e a entender que a escolha das provas, às quais passamos na existência terrena, cabe ao próprio espírito fazê-la. O que precisa ser compreendido é que os espíritos apresentaram, como em outras diversas oportunidades na obra da codificação, a informação geral sobre o assunto em pauta, não sendo possível tratar de todas as particularidades e especificações para cada caso, que muitas vezes não eram ou não foram possíveis de serem apresentadas, neste primeiro momento, pelo apóstolo da revelação humana.

E nem que ele quisesse não seria possível, enfeixar, em apenas cinco obras, todo o conhecimento universal para a criatura humana, habitando um planeta de expiações e provas. Daí a coerência do caráter dinâmico da doutrina em seus aspectos científico, filosófico e religioso. 

Continuando o raciocínio, passemos a estudar a pergunta 262 da obra básica referida, que ainda está abordando a temática da escolha das provas, e que segundo deduzimos da questão 258, fica à critério do espírito realizar.

 

262. Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

 

R. “Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir(*), como fazeis com a criancinha. Deixa-o, porém, pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, senhor de proceder a escolha e só então, é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos bons Espíritos. A isso é que se pode chamar a queda do homem.

 

O entendimento desta questão 262 parece ser contrária ao que foi afirmado na 258, entretanto, uma melhor análise nos conduz a perceber que se trata, na verdade, de um desdobramento da questão 258.  

A resposta dada pelos espíritos “altera” e confere plena coerência ao entendimento do assunto debatido. Ou seja, nem todos os espíritos apresentam condições mentais e evolutivas para empreender, de forma justa e que lhe propicie mais amplo aproveitamento, a escolha das provas que necessite.

Portanto, não há, como não deve haver, uma liberdade irrestrita e ilimitada aos espíritos no tocante as escolhas das provas, notadamente aos de mente ainda pouco desenvolvida em seu aspecto intelectual e moral. Embora esta liberdade seja um direito a que toda alma possa invocar, somente lhe será concedida quando compreenda o dever e o pratique.

Posteriormente, com o melhor desenvolvimento da razão e do seu entendimento, (e haja reencarnações para tanto) é que, gradualmente, o espírito poderá fazer suas escolhas.

Quando bem analisada, a reflexão sobre este conhecimento traz luz sobre o controvertido aspecto do planejamento reencarnatório, assunto que pretendemos abordar em futuro artigo neste Blog.

Para finalizar de modo brilhante, trazemos a participação de Emmanuel em breve trecho da lição “Escolha de provas”, que consta no livro Nascer e Renascer da psicografia de Chico Xavier.

 

“Assim, além da desencarnação, nem todos desfrutam de improviso a faculdade de escolher o lugar ou a situação em que deva prosseguir no esforço de evolução, porquanto, quase sempre, é imperioso o regresso às sombras da retaguarda para refazer com sofrimento e lágrimas, amargura e sacrifício o ensejo perdido de acesso à luz. Se desejas a marcha vitoriosa para lá dos portais de cinza em que se nos renova a visão espiritual, afeiçoa-te, com perseverança e lealdade, ao próprio dever, dele fazendo o pão espiritual, cada dia, porque para alcançar o triunfo e a elevação de amanhã, é indispensável consagrar-lhes a nossa atenção desde hoje.”

 

Emmanuel, venerável espírito, dando a “dica” de que a escolha das provas e até planejamento reencanratório, de certa forma, a gente faz é hoje, pouco a pouco, através de nossas ações cotidianas.

 

 

(*) Todos os grifos são nossos

 

Referência

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

(2) Emmanuel. Nascer e Renascer. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. Brasília. Editora FEB, 1982. 96 p.

segunda-feira, 10 de março de 2025

 

Mediunidade ignorada

Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo.

                         (Kardec, Allan – O Livro dos Médiuns, capítulo XIV).

 

Mediunidade é atributo peculiar ao psiquismo de todas as criaturas, e não exclusiva de algumas pessoas, ou de grupos religiosos. Ela é uma capacidade, uma faculdade do espírito, que se aperfeiçoa pelo exercício e esforço pessoal. Por ser faculdade neutra do espírito, a mediunidade não é sagrada, não é mística, não é mágica e não é sobrenatural.

Em pioneira obra sobre o assunto, O Livro dos Médiuns, Allan Kardec afirma: 

 

“Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva.”

 

Portanto, médium significa intermediário, medianeiro, intérprete, e existiram em todos os tempos. Se na antiguidade eram mais conhecidos por adivinhos e pitonisas e tempos depois, na idade média, podiam ser considerados feiticeiros e bruxas, e frequentemente recomendados à fogueira ou à forca, pagavam com a vida o conhecimento inabitual de que se faziam portadores.

A partir da luz do conhecimento espírita, proporcionado pelos espíritos superiores à Kardec, vimos saber que os médiuns permanecem em toda a parte, porque mediunidade é meio de manifestação do Espírito em seus diversos degraus de evolução.

Desta forma, com as definições de mediunidade acima descritas, temos uma concepção restrita, embora real, desta faculdade do espírito. Na verdade, mediunidade vai muito além.

Há uma frase do Dr. Odilon, espírito presente nas obras do Dr. Inácio Ferreira, recebidas pela psicografia do médium Carlos Baccelli, que retrata, para nós, cristalina verdade:


“A mediunidade é, para o médium, a melhor oportunidade de evolução na sua reencarnação.”


 Estudos aprofundados e mais cuidadosos das obras espíritas do médium Chico Xavier, como deve ser, notadamente aquelas trazidas à lume pelo espírito de André Luiz, auxiliar-nos-á, seguramente, a ampliar esta perspectiva, resgatando o conceito ensinado por Allan Kardec, de que todos, conscientes ou não, somos médiuns.

Trazemos aos nossos estudos e nossas reflexões, oportuno tema referente ao assunto que dá título ao artigo, constante no capítulo dezoito do livro Mecanismo da Mediunidade, onde André Luiz, psicografado por Chico Xavier, discorre sobre interessantes aspectos que desejamos comentar.

Cada ser humano, encarnado e também desencarnado, podem se associar, na forma da influência, de acordo com as inclinações, conforme a onda mental que externa de si mesmo.

Considerando o planeta Terra e as dimensões espirituais que a circunvizinham, não descartando a possibilidade de se estender para além deste limite, a comunicação entre as almas no corpo ou fora dele, nas diversas formas em que Allan Kardec, de maneira pioneira, a estudou em O Livro dos Médiuns, ocorre muito além do período de uma reunião mediúnica de periodicidade semanal no Centro Espírita.

Assim, milhões de pessoas, independentemente de suas preferências e escolhas religiosas, atendendo a ocorrências superiores, no desenvolvimento mediúnico que vise a superação em direção à sublimação da criatura humana ou em associações menos dignas, estabelecem relações mais ou menos duradouras determinando largos processos de mediunidade ignorada, fatos esses corriqueiros e subestimados em todas as épocas da Humanidade.

Somos muito mais médiuns que imaginamos, embora muito menos do que nos compete um dia ser.

Passemos a ler e a estudar a mediunidade sob esta ótica, como uma faculdade inerente e natural do espírito imortal e não como prerrogativa de alguns, notadamente espíritas, assim como, não somente utilizada como abordagem do aspecto religioso ou místico em uma determinada crença. Da mesma forma, comparativamente, o Mestre Jesus não deve ser reconhecido somente como um líder religioso, místico ou um profeta que protagonizou uma série de fenômenos extraordinários, mas sim como “o” Espírito, governador espiritual de nosso planeta, símbolo da maior epopeia de amor já vista e vivenciada pela Humanidade e, para muito além dos muros de um templo religioso, veio nos servir de modelo e guia de homem integral em todos os campos ou áreas da atuação do espírito humano, praticando as formas mais sublimes da virtude apoiadas na ética Divina do “amai-vos como eu vos amei” e do “fazer ao outro o que o outro desejasse que a ele fosse feito”.  

Voltaremos ao assunto da mediunidade como poderosa ferramenta do processo evolutivo da criatura humana, quando lúcida e conscientemente aplicada. Não esquecendo, entretanto, que, se mal utilizada, abrirá sob nossos pés, larga vala de trevas, cuja profundidade será compatível com nossos desacertos.

 

Referência

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 54ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 480p.

 (2) Luiz, André. Mecanismos da mediunidade. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 8ª ed. Brasília. Editora FEB, 1959. 188p.

segunda-feira, 3 de março de 2025

 

Notícias de Júpiter – III

“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se                                                    revelar, ele a aceitará”                    (Kardec, A Gênese, capítulo I, item 55).

 

Neste último artigo, ao apresentarmos várias informações a respeito do planeta Júpiter, como consta na Revista Espírita do ano de 1858, motivamos o leitor a estudar outras fontes de pesquisa e informações alusivas a este assunto.

Sugiro a leitura do livro Cartas de uma morta, obra ditada por Maria João de Deus, espírito que foi na Terra, a mãe de Chico Xavier. Ela descreve, com riqueza de detalhes em certas passagens, a vida em outros planetas, bem como em outras dimensões.

Temos visto, por vezes, companheiros da doutrina e escritores nos periódicos espíritas que defendem a não inclusão, no corpo doutrinário do Espiritismo, informações relacionadas com as condições de vida e com a natureza dos habitantes de outros planetas. Respeitando sempre as demais opiniões, penso exatamente de modo diverso, pois o conhecimento das diversas formas de vidas e condições evolutivas dos mundos, até mesmo de nosso sistema Solar, seja em seus aspectos de lugares altamente evoluídos, como moradia de seres avançados ou em sítios de trevas e sofrimentos, sempre servirá para nos servir de exemplificação e deve ser encarado como um estímulo para melhor nos prepararmos, seja no conhecimento como na virtude, aguçando a vontade de aprender.

Finalizemos então, nosso aprendizado sobre este orbe superior:


OCUPAÇÕES; PERCEPÇÕES

Pergunta - Poderias dar-nos uma ideia das diversas ocupações dos homens?

Resposta – Seria preciso dizer muito. Sua principal ocupação é encorajar os Espíritos que habitam os mundos inferiores a perseverarem no bom caminho. Não havendo entre eles infortúnio a aliviar, vão procurá-los onde existe sofrimento; são os Espíritos bons que vos sustentam e vos atraem ao bom caminho.

Pergunta - Seus habitantes têm uma linguagem articulada, como a nossa?

Resposta – Não; entre eles há comunicação de pensamentos.

Pergunta - A segunda vista é, como nos disseram, uma faculdade normal e permanente entre vós?

Resposta – Sim, o Espírito não tem entraves; nada se lhe oculta.

 

Notem que a principal ocupação das almas nobres habitantes deste nível evolutivo de planeta, é exclusivamente, trabalhar em benefício do próximo. Já desenvolveram e fixaram o conceito, coisa que em nós ainda está latente ou em germe, do “Amai-vos uns aos outros como eu vos ameis”. Por vezes, reencarnam sobre a Terra, espíritos, conhecidos ou anônimos,  que vem exemplificar esta máxima e são tidos como verdadeiros anjos, espíritos luminares, quando não, são tidos por extra terrestres, o que não está destituído de razão. Sigamos:

 

MORTE

Pergunta - A morte inspira o horror e o pavor que provoca entre nós?

Resposta – Por que seria apavorante? O mal já não existe entre nós. Só o mau encara o seu último momento com pavor: ele teme o seu juiz.

Pergunta - Em que se transformam os habitantes de Júpiter após a morte?

Resposta – Crescem sempre em perfeição, sem mais terem que sofrer provas.

Pergunta - Não haverá, em Júpiter, Espíritos que se submetam a provas para cumprirem uma missão?

Resposta – Sim, mas não se trata mais de uma prova; só o amor do bem os leva a sofrer.

Pergunta - Podem falir em suas missões?

Resposta – Não, visto que são bons; não há fraqueza senão onde há defeito.

Pergunta - Poderias nomear alguns dos Espíritos habitantes de Júpiter que cumpriram uma grande missão na Terra?

Resposta – São Luís.

 

ANIMAIS

Pergunta - O corpo dos animais é mais material que o dos homens?

Resposta – Sim; o homem é o rei, o Deus terrestre.

Pergunta - Entre os animais há os que são carnívoros?

Resposta - Os animais não se estraçalham entre si; vivem todos submetidos ao homem, amando-se mutuamente.

Pergunta - Disseram-nos que os animais são os servidores e os operários que executam os trabalhos materiais, constroem as habitações, etc; isso é verdade?

Resposta – Sim; o homem não se rebaixa mais para servir ao seu semelhante.

Pergunta - Os animais servidores estão ligados a uma pessoa ou a uma família, ou são tomados e trocados à vontade, como aqui?

Resposta – Todos se ligam a uma família particular; mudais mais, para achar um melhor.

Pergunta - Vivem os animais servidores em estado de escravidão ou de liberdade? São uma propriedade ou podem mudar de dono à vontade?

Resposta – Eles lá se encontram em estado de submissão.

Pergunta - Os animais têm uma linguagem mais precisa e mais caracterizada que a dos animais terrestres?

Resposta – Certamente.

 

São extremamente interessantes estas notícias sobre os animais em Júpiter. Eles se aperfeiçoaram ao mesmo tempo que os homens a ponto de executarem tarefas impensadas ao leigo. Sabe-se aliás, que a Lei é tão admirável que a vontade de um Espírito de Júpiter pode chamar a si todo animal que, numa de suas vidas anteriores, lhe haja dado provas de afeição.

Em consequência, o apego e o cuidado que os espíritos  tem de domesticá-lo e de humanizá-lo, tem sua razão de ser, tudo será pago: o animal torna-se um bom ajudante preparando-o para um mundo melhor.

 

ESTADO MORAL DOS HABITANTES

Pergunta - Os Espíritos são iguais ou de diferentes graduações?

Resposta – De diversos graus, mas da mesma ordem.

Pergunta - Rogamos que te reportes à escala espírita que demos no segundo número da Revista, e que nos digas a que ordem pertencem os Espíritos encarnados em Júpiter.

Resposta - Todos bons, todos superiores; por vezes o bem desce até o mal; mas o mal jamais se mistura ao bem.

Pergunta - Os habitantes formam diferentes povos, como na Terra?

Resposta – Sim; mas todos se unem entre si pelos laços do amor.

Pergunta - Sendo assim, as guerras são desconhecidas?

Resposta – Pergunta inútil.

Pergunta - Na Terra poderá o homem alcançar suficiente grau de perfeição que o isente das guerras?

Resposta – Seguramente alcançará; a guerra desaparecerá com o egoísmo dos povos e à medida que compreenderem melhor a fraternidade.

Pergunta - Os povos são governados por chefes?

Resposta – Sim.

Pergunta - Em que se baseia a autoridade dos chefes?

Resposta – No seu grau superior de perfeição.

 

Quanta diferença em relação à nossa triste realidade, mas um dia chegaremos lá! (não resisti). Reina a paz, as guerras com os costumes bárbaros e primitivos desapareceram, como nos esclarece Allan Kardec no estudo do Livro dos Espíritos na Lei do Progresso, a qual, todos os povos do Universo estão submetidos.

 

Pergunta - Em que consiste a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em Júpiter, considerando-se que todos são bons?

Resposta – Eles têm maior ou menor cabedal de conhecimentos e experiência; depuram-se, à medida que se esclarecem.

Pergunta - Se o povo mais avançado da Terra se visse transportado para Júpiter, que posição ocuparia?

Resposta – A dos vossos macacos.

 

Nessa última resposta, perceberam a distância do momento evolutivo dos terráqueos (os mais evoluídos hein!) com os de Júpiter? É de impressionar a comparação feita.


POSSES MATERIAIS

Pergunta - Há ricos e pobres, isto é, homens que vivem na abundância e no supérfluo, e outros a quem falta o necessário?

Resposta – Não; todos são irmãos; se um possuísse mais que o outro, com este dividiria; não seria feliz quando seu irmão se privasse do necessário.

Pergunta - De acordo com isso, as fortunas seriam iguais para todos?

Resposta – Eu não disse que todos sejam ricos no mesmo grau; perguntastes se haveria os que possuem o supérfluo e outros a quem faltasse o necessário.

Pergunta - Essas duas respostas nos parecem contraditórias; pedimos que estabeleças a concordância entre elas.

Resposta – A ninguém falta o necessário; ninguém possui o supérfluo, ou seja, a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeitos?

Pergunta - Agora compreendemos; mas perguntamos, ainda, se aquele que tem menos não é infeliz, relativamente àquele que tem mais?

Resposta – Não pode ser infeliz, desde que não é invejoso nem ciumento. A inveja e o ciúme fazem mais infelizes que a miséria.

 

TEMPLO DO CORAÇÃO

Pergunta - Quando um Espírito que deixa a Terra deve reencarnar-se em Júpiter, fica errante durante algum tempo até encontrar o corpo ao qual deverá se unir?

Resposta – Ele o é durante certo tempo, até que se tenha liberado das imperfeições terrestres.

Pergunta - Há várias religiões?

Resposta – Não; todos professam o bem e todos adoram um único Deus.

Pergunta - Há templos e um culto?

Resposta – Por templo há o coração do homem; por culto, o bem que ele faz.

Encerramos este estudo sobre os habitantes de Júpiter, fazendo votos que possa estimular em todos, desejos sinceros de melhoria íntima e cada vez mais nos interessarmos sobre a maravilha desta doutrina que nos descortina sempre novos horizontes, fora e dentro de cada um de nós.

 

Referência

(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. Habitações do planeta Júpiter. Agosto de 1858. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 536p.

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

  Singela homenagem a Allan Kardec No dia 31 de março de 1869, numa fria manhã de quarta-feira, entre 11 e 12 horas, desencarna, pela rupt...