segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

 

Há crianças no mundo espiritual? - Parte I

 

O Espírito encarnado ainda não ponderou devidamente o conjunto de possibilidades divinas guardadas em suas mãos, dons sagrados tantas vezes convertidos em elementos de ruína e destruição”.

O Consolador, q. 320 – Emmanuel / Chico Xavier

 

A dúvida e às vezes até a descrença, no que concerne à existência de crianças no mundo espiritual tem sua origem nas orientações (ou desorientações?) religiosas da antiguidade, bem como, na falta de conhecimento da maioria das pessoas acerca da realidade espiritual que governa a criatura humana. Talvez, melhor me expressando, a dúvida resida na ignorância de como a obra Divina se estrutura sobre a Terra, quando nos referimos aos seres vivos.

É óbvio que não nutrimos a pretensão de saber de forma plena como esta estruturação possa ocorrer. E quem aqui na Terra a pode conceber? Entretanto, com os conhecimentos da Doutrina Espírita, temos material mais que suficiente para nossos estudos e reflexões.

Para fundamentar a resposta à pergunta do título deste artigo, há necessidade de uma pequena digressão, à qual, convido ao leitor acompanhar-me o raciocínio.

Notemos como tudo está perfeitamente alinhado e segue um princípio de sequência que os estudos científicos já identificaram nos seres vivos, porém, em se tratando dos estudos e pesquisas no campo do espírito, muito ainda há que se fazer.

- NECESSIDADE DE COMPREENSÃO SOBRE O PERISPÍRITO

Desde que “nasce” para a vida espiritual, o Espírito necessita revestir-se de um tipo de matéria semi-condensada (corpo espiritual), que possibilite o intercâmbio de informações e sensações entre o espírito e a matéria, inclusive para poder atuar sobre a matéria mais grosseira (corpo físico).

Este corpo espiritual era conhecido e foi estudado há milênios pelos iniciados nas ciências secretas, por magos, médiuns e filósofos. Pitágoras, Aristóteles, Platão, Tertuliano, Hipócrates, Paulo de Tarso e Paracelso, dentre outros, o conheciam sob as mais diversas denominações. Entretanto, Allan Kardec na questão 93 do Livro dos Espíritos, é quem melhor o define utilizando uma comparação simples: Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que, por comparação, se pode chamar perispírito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito”.

É ele o laço que liga a alma ao corpo, sua natureza semimaterial faz com que participe tanto do mundo físico como do espiritual. O Perispírito tem composição adequada ao estado de evolução do espírito, sendo a princípio, rudimentar.

Conhecido como o laço que une a matéria ao espírito, o Perispírito é a matriz e o modelo para a formação do corpo físico que abrigará o Espírito.

Allan Kardec afirma no livro A Gênese

“...o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em formação, donde o poder dizer-se que o Espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra”. 

Assim o perispírito, é o inspirador da forma corpórea, a qual submete-se à ação limitada dos caracteres hereditários herdados dos pais. Ou seja, o Espírito, na reencarnação, através do perispírito, plasma o corpo físico mais adequado e apropriado para suas necessidades evolutivas.

Citamos a questão 196a de O Livro dos Espíritos:

“É o corpo que influi sobre o Espírito para que este se melhore, ou o Espírito que influi sobre o corpo?  “Teu Espírito é tudo; teu corpo é simples veste que apodrece: eis tudo”.  

Mais claro que isso, impossível!

Depreende-se desta breve explanação que o Espírito evolui no mundo físico e no mundo espiritual e que se faz acompanhar, para tanto, de um corpo de natureza semimaterial que viabiliza sua manifestação nas diversas dimensões que habita, além de conferir a individualidade do espírito, após a desencarnação.

Tendo apresentado este preâmbulo, podemos nos sentir um pouco embasados para chagarmos ao ponto fundamental do desenvolvimento do nosso raciocínio, acerca da existência de crianças no mundo espiritual.                                                

Para tanto, analisemos algumas questões de O Livro dos Espíritos.

À questão 142, os instrutores da espiritualidade expressam, sem sombra de dúvida, o conceito de que o Espírito é uno tanto na criança como no adulto.  Portanto não há diferença, a não ser a do grau de evolução, no tocante à parte espiritual. Inclusive, afirmam na questão 197 que o Espírito de uma criança pode até ser mais evoluído que o de um adulto. Exemplos disso verificamos muitas vezes nas famílias em nosso plano de vida em que o filho, ainda criança ou jovem, manifesta caráter mais ilibado que o dos pais.

O Espírito não acompanha em sua estruturação as diferentes fases das características físicas pelas quais passa o ser humano encarnado na Terra. Seja feto, embrião, criança, jovem, adulto ou idoso, o espírito em qualquer destas fases do corpo físico, repetimos, é uno.

Enfatizamos que, o Espírito em sua origem não foi criado criança. As referências que encontramos em vários textos e obras de cunho filosófico ou religioso sobre a infância espiritual, referem-se ao sentido do Espírito não trazer ainda amadurecimento do senso moral e nem conhecimentos básicos solidificados sobre as questões próprias da espiritualidade.

Seria o chamado “estado de natureza” a que se refere a questão 776 de O Livro dos Espíritos;

Dizer que tal espírito é infantil deve ser entendido, portanto, como o estado ou ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral, como ser imortal.

Exemplificando, poderíamos dizer que, as pessoas que ainda se encontram na fase de infância espiritual são aquelas que não se preocupam com as questões transcendentais da existência do tipo de onde venho, para onde vou, o que estou fazendo aqui na Terra. Qual o objetivo da minha vida?

Estas simples reflexões, quando realizadas, deveriam conduzir a criatura, naturalmente, ao desenvolvimento de padrões de pensamentos que influem positivamente no seu estado de vida, olhando e agindo de forma diferente, nas diversas situações da vida.

Outro exemplo pode associar a ação nociva dos malfeitores em geral que, movidos pelos mais absurdos propósitos, não encontraram nenhum sentido em sua vida física quanto mais na dos outros. São Espíritos que estacionaram na infância espiritual do desenvolvimento do senso moral, embora não sejam mais crianças quanto ao aspecto físico.   

 

Fim da primeira parte. No próximo artigo, concluiremos nossos estudos e reflexões sobre este assunto.

(*) Todos os grifos são meus.

Referências

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

(2) Kardec, Allan. A Gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro da 5ª edição francesa. 25ª ed.  Rio de Janeiro. Editora FEB, 1944. 424p.

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