Há crianças no mundo espiritual? - Parte I
“O Espírito encarnado ainda não ponderou
devidamente o conjunto de possibilidades divinas guardadas em suas mãos, dons
sagrados tantas vezes convertidos em elementos de ruína e destruição”.
O Consolador, q. 320 – Emmanuel / Chico Xavier
A dúvida e
às vezes até a descrença, no que concerne à existência de crianças no mundo
espiritual tem sua origem nas orientações (ou desorientações?) religiosas da
antiguidade, bem como, na falta de conhecimento da maioria das pessoas acerca da realidade espiritual que governa a criatura humana. Talvez, melhor me
expressando, a dúvida resida na ignorância de como a obra Divina se estrutura sobre
a Terra, quando nos referimos aos seres vivos.
É óbvio que
não nutrimos a pretensão de saber de forma plena como esta estruturação possa
ocorrer. E quem aqui na Terra a pode conceber? Entretanto, com os conhecimentos
da Doutrina Espírita, temos material mais que suficiente para nossos estudos e
reflexões.
Para
fundamentar a resposta à pergunta do título deste artigo, há necessidade de uma
pequena digressão, à qual, convido ao leitor acompanhar-me o raciocínio.
Notemos como
tudo está perfeitamente alinhado e segue um princípio de sequência que os
estudos científicos já identificaram nos seres vivos, porém, em se tratando dos
estudos e pesquisas no campo do espírito, muito ainda há que se fazer.
- NECESSIDADE DE COMPREENSÃO SOBRE O PERISPÍRITO
Desde que “nasce”
para a vida espiritual, o Espírito necessita revestir-se de um tipo de matéria
semi-condensada (corpo espiritual), que possibilite o intercâmbio de
informações e sensações entre o espírito e a matéria, inclusive para poder
atuar sobre a matéria mais grosseira (corpo físico).
Este corpo espiritual
era conhecido e foi estudado há milênios pelos iniciados nas ciências secretas,
por magos, médiuns e filósofos. Pitágoras, Aristóteles, Platão, Tertuliano,
Hipócrates, Paulo de Tarso e Paracelso, dentre outros, o conheciam sob as mais
diversas denominações. Entretanto, Allan Kardec na questão 93 do Livro dos
Espíritos, é quem melhor o define utilizando uma comparação simples: “Envolvendo o
gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que, por
comparação, se pode chamar perispírito, serve de envoltório
ao Espírito propriamente dito”.
É ele o laço que liga a alma ao corpo,
sua natureza semimaterial faz com que participe tanto do mundo físico como do
espiritual. O Perispírito tem composição adequada ao estado de evolução do
espírito, sendo a princípio, rudimentar.
Conhecido
como o laço que une a matéria ao espírito, o Perispírito é a matriz e o modelo
para a formação do corpo físico que abrigará o Espírito.
Allan
Kardec afirma no livro A Gênese
“...o perispírito, que
possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula,
ao corpo em formação, donde o poder dizer-se que o Espírito, por intermédio do
seu perispírito, se enraíza,
de certa maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra”.
Assim o perispírito, é o inspirador da forma
corpórea, a qual submete-se à ação limitada dos caracteres hereditários
herdados dos pais. Ou seja, o Espírito, na reencarnação, através do
perispírito, plasma o corpo físico mais adequado e apropriado para suas
necessidades evolutivas.
Citamos a questão 196a de
O Livro dos Espíritos:
“É o corpo que influi sobre o
Espírito para que este se melhore, ou o Espírito que influi sobre o corpo? “Teu
Espírito é tudo; teu corpo é simples veste que apodrece: eis tudo”.
Mais claro que isso,
impossível!
Depreende-se desta breve explanação
que o Espírito evolui no mundo físico e no mundo espiritual e que se faz
acompanhar, para tanto, de um corpo de natureza semimaterial que viabiliza sua
manifestação nas diversas dimensões que habita, além de conferir a individualidade
do espírito, após a desencarnação.
Tendo apresentado este preâmbulo, podemos nos sentir um pouco embasados para chagarmos ao ponto fundamental do desenvolvimento do nosso raciocínio, acerca da existência de crianças no mundo espiritual.
Para tanto, analisemos algumas questões de O Livro dos Espíritos.
À questão 142, os instrutores da espiritualidade expressam, sem sombra de dúvida, o conceito de que o Espírito é uno tanto na criança como no adulto. Portanto não há diferença, a não ser a do grau de evolução, no tocante à parte espiritual. Inclusive, afirmam na questão 197 que o Espírito de uma criança pode até ser mais evoluído que o de um adulto. Exemplos disso verificamos muitas vezes nas famílias em nosso plano de vida em que o filho, ainda criança ou jovem, manifesta caráter mais ilibado que o dos pais.
O
Espírito não acompanha em sua estruturação as diferentes fases das
características físicas pelas quais passa o ser humano encarnado na Terra. Seja
feto, embrião, criança, jovem, adulto ou idoso, o espírito em qualquer destas
fases do corpo físico, repetimos, é uno.
Enfatizamos que, o Espírito em sua origem não foi criado criança. As
referências que encontramos em vários textos e obras de cunho filosófico ou
religioso sobre a infância espiritual, referem-se ao sentido do Espírito não
trazer ainda amadurecimento do senso moral e nem conhecimentos básicos
solidificados sobre as questões próprias da espiritualidade.
Seria o chamado “estado de natureza” a que se refere a questão 776 de O
Livro dos Espíritos;
Dizer que tal espírito é infantil deve ser entendido, portanto, como o
estado ou ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral, como ser imortal.
Exemplificando, poderíamos dizer que, as pessoas que ainda se encontram
na fase de infância espiritual são aquelas que não se preocupam com as questões
transcendentais da existência do tipo de onde venho, para onde vou, o que estou
fazendo aqui na Terra. Qual o objetivo da minha vida?
Estas simples reflexões, quando realizadas, deveriam conduzir a criatura,
naturalmente, ao desenvolvimento de padrões de pensamentos que influem
positivamente no seu estado de vida, olhando e agindo de forma diferente, nas
diversas situações da vida.
Outro exemplo pode associar a ação nociva dos malfeitores em geral que,
movidos pelos mais absurdos propósitos, não encontraram nenhum sentido em sua
vida física quanto mais na dos outros. São Espíritos que estacionaram na
infância espiritual do desenvolvimento do senso moral, embora não sejam mais crianças
quanto ao aspecto físico.
Fim da primeira parte. No próximo artigo, concluiremos nossos estudos e reflexões
sobre este assunto.
(*) Todos os grifos são meus.
Referências
(1)
Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro.
67ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.
(2)
Kardec, Allan. A Gênese. Os milagres e as predições segundo o
Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro da 5ª edição francesa. 25ª
ed. Rio de Janeiro. Editora FEB, 1944. 424p.
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