AS ARISTOCRACIAS
Desde a antiguidade clássica, com Aristóteles,
Platão, Heródoto, entre outros, a perene preocupação de como e quem deveria
governar uma sociedade, um país, sempre gerou grandes debates sobre as
diferentes formas de governo.
Situada conceitualmente como uma espécie de
meio termo entre a monarquia e democracia, a aristocracia, palavra de origem
grega que significa “poder dos melhores”, foi concebida originalmente como uma forma de governo formada por um
grupo de pessoas escolhidas segundo suas virtudes políticas e capacidades para
promover o bem comum.
Em artigo sobre
este tema, encontra-se que: “Para os
filósofos gregos, na aristocracia o poder estaria na mão dos cidadãos que
fossem dotados de uma boa formação moral, capaz de interpretar os interesses do
povo. Com um extraordinário conhecimento sobre a ética, esse grupo estaria
blindado das possibilidades de corrupção orquestradas para privilegiar
interesses próprios ou o interesse dos mais ricos”.
Claramente se
observa, a sublime intenção registrada desde a antiguidade, porém que em razão
da imperfeição humana, ainda estamos longe de atendermos aos critérios de
“formação moral” ou “interpretar os interesses do povo” com “ética” e
“blindados contra a corrupção” que, com as naturais exceções, são predicados
raríssimos, senão plenamente ausentes, na classe política do Brasil e alguns
outros países.
Durante a Idade
Média, o termo aristocracia ganhou um novo significado deturpado do conceito
original da antiguidade, e que é mais conhecido atualmente. Passou, a
aristocracia, a se denominar o grupo privilegiado de pessoas que ocupa a
posição mais abastada no estrato social das sociedades como um grupo de
privilegiados e nobres, os aristocratas. Pode ser considerada a elite de nossos
dias.
Aliás, com raras
exceções, as elites sempre ignoraram Jesus, ao
ponto de ele exclamar: "Graças te rendo, meu Pai, Senhor do Céu e da
Terra, por haverdes ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as
teres revelado aos simples e pequenos".
O que irá anunciar o Evangelho às elites é o
Anjo da Dor!
Para auxiliar nossos estudos e reflexões sobre o tema aristocracia, neste artigo, desejo referir-me ao livro Obras Póstumas.
Este livro, publicado pelos integrantes da
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas 21 anos após o desencarne do
codificador, em 1890, é uma compilação de textos não publicados. Provavelmente,
teriam sido apresentados em outras obras, caso Kardec não houvesse desencarnado
antes.
Importante estudo realizado por Allan Kardec,
encontra-se registrado nesta obra, cujo texto a que me refiro, encontra-se
localizado no final da primeira parte do livro, denominado “As
Aristocracias”. Vejamos que influência e
qual importante contribuição o Espiritismo pode exercer na sua aplicação.
Nele, Kardec apresenta uma proposta de como, ao
longo das idades ou eras da Humanidade, surgiram as estruturas de poder, independente
dos mais diversos rótulos políticos e sociais criados pelas pessoas até os dias
atuais. Deste estudo, naturalmente surge a dedução de como será no futuro,
sempre sob a ótica e os ensinamentos espíritas.
Diz-nos o eminente codificador:
“Em nenhum tempo, nem no seio de
nenhum povo, os homens, em sociedade, hão podido prescindir de chefes; com estes
deparamos nas tribos mais selvagens. Decorre isto de que, em razão da
diversidade das aptidões e dos caracteres inerentes à espécie humana, há por
toda parte homens incapazes, que precisam ser dirigidos, homens fracos que
reclamam proteção, paixões que exigem repressão. Daí a necessidade imperiosa de
uma autoridade. É sabido que, nas sociedades primitivas, essa autoridade foi
conferida aos chefes de família, aos antigos, aos anciãos; numa palavra: aos
patriarcas”.
Surge então a primeira de todas as
aristocracias, a Patriarcal.
Afirma Kardec que como as sociedades
foram se ampliando e tornando-se numerosas, a autoridade patriarcal veio a
ficar impotente em certas circunstâncias, sobretudo em razão dos combates e
conflitos entre os povos.
“Para dirigir os povos durante os
combates – elucida Kardec - os mais velhos perderam espaço para os homens
fortes, vigorosos e inteligentes; daí surgirem os chefes militares. Vitoriosos,
estes chefes foram investidos da autoridade, esperando os seus comandados que
com a valentia deles estariam garantidos contra os ataques dos inimigos”.
Surgia no horizonte da humanidade a
segunda aristocracia que era a da autoridade, da força bruta.
Naturalmente, os fortes, elevados à
condição de líderes, transmitiam a seus filhos a autoridade de que desfrutavam;
e os fracos, nada ousando dizer, se habituaram pouco a pouco a ter esses filhos
por herdeiros dos direitos que os pais haviam conquistado e a considerá-los
seus superiores.
Nascia, devagar, sem muita
contestação dos dominados a terceira aristocracia, denominada do nascimento.
Ela estabeleceu a divisão da
sociedade em duas, sendo a classe dos superiores que mandavam e a classe dos
inferiores que obedeciam.
Trata-se de uma aristocracia poderosa,
exemplificada nas monarquias, quando os reis transmitiam a autoridade para os
filhos. Para mantê-la, ela se permitiu todos os privilégios e fez as leis em
seu próprio proveito dando muitas vezes, o direito divino para torná-los
incontestáveis e invioláveis.
Aliás, muito semelhante à atual
realidade, que, embora não sejamos uma monarquia, nossas autoridades
constituídas, legislam em causa própria para se eternizarem no poder.
Mas, voltemos ao nosso ponto.
Kardec esclarece, fazendo de fato uma
interessante previsão:
“A fim de lhes assegurar o respeito
das classes submetidas, que cada vez mais numerosas se faziam e mais difíceis
de ser contidas, mesmo pela força, um único meio havia: impedi-las de ver
claro, isto é, conservá-las na ignorância”. Estão vendo? Parece que conhecemos
este filme.
Mas como a classe submetida foi
obrigada a trabalhar para viver, e trabalhar tanto mais quanto mais premida se
achava, resultou que essa necessidade lhe desenvolveu a inteligência e fez com
que as próprias causas, de que os da classe superior se serviam para trazê-la
sujeita, a esclarecessem. “Não se patenteia aí o dedo da Providência?” sabiamente questiona o codificador.
Aos poucos os privilégios foram sendo
abolidos e a igualdade sendo estabelecida. Isto marcou entre alguns povos o fim
do reinado da aristocracia de nascimento, que passou a ser apenas nominal e
honorífica, porquanto já não confere direitos legais.
Elevou-se então uma nova potência, a
do dinheiro, porque com dinheiro se dispõe dos homens e das coisas. Era um sol
nascente e diante do qual todos se inclinaram, como outrora se curvavam diante
de um brasão. O que não se concedia ao título, concedia-se à riqueza e a
riqueza teve igualmente seus privilégios.
Surge a aristocracia do dinheiro,
a quarta aristocracia.
Logo, porém, se aperceberam de que,
para conseguir a riqueza, certa dose de inteligência era necessária, não sendo
necessária muita para herdá-la, e de que os descendentes são quase sempre mais
hábeis em a consumir, do que em ganhá-la, de que os próprios meios de
enriquecimento nem sempre são irreprocháveis, donde resultou ir o dinheiro
perdendo pouco a pouco o seu prestígio moral e tender essa potência a ser
substituída por outra, por uma aristocracia mais justa: a da inteligência.
A aristocracia da inteligência,
é a quinta que surgia entre os homens.
Esta parece ser uma aristocracia mais
democrática, pois a ela podem pertencer tanto o pobre como o rico. Mas como o
homem inteligente pode fazer mau uso das suas faculdades, e não vem acompanhado
da moralidade, será esta a última aristocracia expressando a humanidade
civilizada?
Kardec esclarece que: “a reunião
dessas duas faculdades, inteligência e moralidade, é necessária a criar
uma preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque lhe
inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça”.
Para Kardec está “será essa a última
aristocracia, a que se apresentará como consequência, ou, antes, como sinal do
advento do reinado do bem na Terra. Ela se erguerá muito natural mente pela
força mesma das coisas. Quando os homens de tal categoria forem bastante
numerosos para formarem uma maioria imponente, a massa lhes confiará seus
interesses”.
Conclui Kardec sobre a ocorrência de
cada uma das aristocracias em momentos diversos no seio dos povos:
“Como vimos, todas as aristocracias
tiveram sua razão de ser; nasceram do estado da Humanidade; assim há de
acontecer com o que se tornará uma necessidade. Todas preencheram ou
preencherão seu tempo, conforme os países, porque nenhuma teve por base o
princípio moral; só este princípio pode constituir uma supremacia durável,
porque terá a animá-la sentimentos de justiça e caridade.
Essa será a sexta aristocracia, chamada
de aristocracia intelecto-moral.
Concluímos dizendo que atingir esta
situação não será obra de um dia. O
Espiritismo, através dos princípios espirituais que, por excelência, esclarece,
é um dos fortes precursores da aristocracia intelecto-moral.
* Todos os grifos são meus.
Referência:
(1)Aristocracia. Camila Betoni. Disponível em: https://www.infoescola.com/politica/aristocracia/. Acesso em: 14 novembro 2024.
(2) Kardec, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 17ª ed. Brasília. Editora FEB, 1890. 395p.
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