segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

 

AS ARISTOCRACIAS

Desde a antiguidade clássica, com Aristóteles, Platão, Heródoto, entre outros, a perene preocupação de como e quem deveria governar uma sociedade, um país, sempre gerou grandes debates sobre as diferentes formas de governo.

Situada conceitualmente como uma espécie de meio termo entre a monarquia e democracia, a aristocracia, palavra de origem grega que significa “poder dos melhores”, foi concebida originalmente como uma forma de governo formada por um grupo de pessoas escolhidas segundo suas virtudes políticas e capacidades para promover o bem comum.

Em artigo sobre este tema, encontra-se que: “Para os filósofos gregos, na aristocracia o poder estaria na mão dos cidadãos que fossem dotados de uma boa formação moral, capaz de interpretar os interesses do povo. Com um extraordinário conhecimento sobre a ética, esse grupo estaria blindado das possibilidades de corrupção orquestradas para privilegiar interesses próprios ou o interesse dos mais ricos”.

Claramente se observa, a sublime intenção registrada desde a antiguidade, porém que em razão da imperfeição humana, ainda estamos longe de atendermos aos critérios de “formação moral” ou “interpretar os interesses do povo” com “ética” e “blindados contra a corrupção” que, com as naturais exceções, são predicados raríssimos, senão plenamente ausentes, na classe política do Brasil e alguns outros países.  

Durante a Idade Média, o termo aristocracia ganhou um novo significado deturpado do conceito original da antiguidade, e que é mais conhecido atualmente. Passou, a aristocracia, a se denominar o grupo privilegiado de pessoas que ocupa a posição mais abastada no estrato social das sociedades como um grupo de privilegiados e nobres, os aristocratas. Pode ser considerada a elite de nossos dias.

Aliás, com raras exceções, as elites sempre ignoraram Jesus, ao ponto de ele exclamar: "Graças te rendo, meu Pai, Senhor do Céu e da Terra, por haverdes ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e pequenos".  

O que irá anunciar o Evangelho às elites é o Anjo da Dor!

Para auxiliar nossos estudos e reflexões sobre o tema aristocracia, neste artigo, desejo referir-me ao livro Obras Póstumas.

Este livro, publicado pelos integrantes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas 21 anos após o desencarne do codificador, em 1890, é uma compilação de textos não publicados. Provavelmente, teriam sido apresentados em outras obras, caso Kardec não houvesse desencarnado antes.

Importante estudo realizado por Allan Kardec, encontra-se registrado nesta obra, cujo texto a que me refiro, encontra-se localizado no final da primeira parte do livro, denominado “As Aristocracias”.  Vejamos que influência e qual importante contribuição o Espiritismo pode exercer na sua aplicação.

Nele, Kardec apresenta uma proposta de como, ao longo das idades ou eras da Humanidade, surgiram as estruturas de poder, independente dos mais diversos rótulos políticos e sociais criados pelas pessoas até os dias atuais. Deste estudo, naturalmente surge a dedução de como será no futuro, sempre sob a ótica e os ensinamentos espíritas.

Diz-nos o eminente codificador:  

“Em nenhum tempo, nem no seio de nenhum povo, os homens, em sociedade, hão podido prescindir de chefes; com estes deparamos nas tribos mais selvagens. Decorre isto de que, em razão da diversidade das aptidões e dos caracteres inerentes à espécie humana, há por toda parte homens incapazes, que precisam ser dirigidos, homens fracos que reclamam proteção, paixões que exigem repressão. Daí a necessidade imperiosa de uma autoridade. É sabido que, nas sociedades primitivas, essa autoridade foi conferida aos chefes de família, aos antigos, aos anciãos; numa palavra: aos patriarcas”.

Surge então a primeira de todas as aristocracias, a Patriarcal.

Afirma Kardec que como as sociedades foram se ampliando e tornando-se numerosas, a autoridade patriarcal veio a ficar impotente em certas circunstâncias, sobretudo em razão dos combates e conflitos entre os povos.

“Para dirigir os povos durante os combates – elucida Kardec - os mais velhos perderam espaço para os homens fortes, vigorosos e inteligentes; daí surgirem os chefes militares. Vitoriosos, estes chefes foram investidos da autoridade, esperando os seus comandados que com a valentia deles estariam garantidos contra os ataques dos inimigos”.

Surgia no horizonte da humanidade a segunda aristocracia que era a da autoridade, da força bruta.

Naturalmente, os fortes, elevados à condição de líderes, transmitiam a seus filhos a autoridade de que desfrutavam; e os fracos, nada ousando dizer, se habituaram pouco a pouco a ter esses filhos por herdeiros dos direitos que os pais haviam conquistado e a considerá-los seus superiores.

Nascia, devagar, sem muita contestação dos dominados a terceira aristocracia, denominada do nascimento.

Ela estabeleceu a divisão da sociedade em duas, sendo a classe dos superiores que mandavam e a classe dos inferiores que obedeciam.

Trata-se de uma aristocracia poderosa, exemplificada nas monarquias, quando os reis transmitiam a autoridade para os filhos. Para mantê-la, ela se permitiu todos os privilégios e fez as leis em seu próprio proveito dando muitas vezes, o direito divino para torná-los incontestáveis e invioláveis.

Aliás, muito semelhante à atual realidade, que, embora não sejamos uma monarquia, nossas autoridades constituídas, legislam em causa própria para se eternizarem no poder.   

Mas, voltemos ao nosso ponto.

Kardec esclarece, fazendo de fato uma interessante previsão:

“A fim de lhes assegurar o respeito das classes submetidas, que cada vez mais numerosas se faziam e mais difíceis de ser contidas, mesmo pela força, um único meio havia: impedi-las de ver claro, isto é, conservá-las na ignorância”. Estão vendo? Parece que conhecemos este filme.

Mas como a classe submetida foi obrigada a trabalhar para viver, e trabalhar tanto mais quanto mais premida se achava, resultou que essa necessidade lhe desenvolveu a inteligência e fez com que as próprias causas, de que os da classe superior se serviam para trazê-la sujeita, a esclarecessem. “Não se patenteia aí o dedo da Providência?”  sabiamente questiona o codificador.

Aos poucos os privilégios foram sendo abolidos e a igualdade sendo estabelecida. Isto marcou entre alguns povos o fim do reinado da aristocracia de nascimento, que passou a ser apenas nominal e honorífica, porquanto já não confere direitos legais.

Elevou-se então uma nova potência, a do dinheiro, porque com dinheiro se dispõe dos homens e das coisas. Era um sol nascente e diante do qual todos se inclinaram, como outrora se curvavam diante de um brasão. O que não se concedia ao título, concedia-se à riqueza e a riqueza teve igualmente seus privilégios.

Surge a aristocracia do dinheiro, a quarta aristocracia.

Logo, porém, se aperceberam de que, para conseguir a riqueza, certa dose de inteligência era necessária, não sendo necessária muita para herdá-la, e de que os descendentes são quase sempre mais hábeis em a consumir, do que em ganhá-la, de que os próprios meios de enriquecimento nem sempre são irreprocháveis, donde resultou ir o dinheiro perdendo pouco a pouco o seu prestígio moral e tender essa potência a ser substituída por outra, por uma aristocracia mais justa: a da inteligência.

A aristocracia da inteligência, é a quinta que surgia entre os homens.

Esta parece ser uma aristocracia mais democrática, pois a ela podem pertencer tanto o pobre como o rico. Mas como o homem inteligente pode fazer mau uso das suas faculdades, e não vem acompanhado da moralidade, será esta a última aristocracia expressando a humanidade civilizada?  

Kardec esclarece que: “a reunião dessas duas faculdades, inteligência e moralidade, é necessária a criar uma preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça”.

Para Kardec está “será essa a última aristocracia, a que se apresentará como consequência, ou, antes, como sinal do advento do reinado do bem na Terra. Ela se erguerá muito natural mente pela força mesma das coisas. Quando os homens de tal categoria forem bastante numerosos para formarem uma maioria imponente, a massa lhes confiará seus interesses”.

Conclui Kardec sobre a ocorrência de cada uma das aristocracias em momentos diversos no seio dos povos:

“Como vimos, todas as aristocracias tiveram sua razão de ser; nasceram do estado da Humanidade; assim há de acontecer com o que se tornará uma necessidade. Todas preencheram ou preencherão seu tempo, conforme os países, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só este princípio pode constituir uma supremacia durável, porque terá a animá-la sentimentos de justiça e caridade.

Essa será a sexta aristocracia, chamada de aristocracia intelecto-moral.

Concluímos dizendo que atingir esta situação não será obra de um dia. O Espiritismo, através dos princípios espirituais que, por excelência, esclarece, é um dos fortes precursores da aristocracia intelecto-moral.

* Todos os grifos são meus.

Referência:

(1)Aristocracia. Camila Betoni. Disponível em: https://www.infoescola.com/politica/aristocracia/. Acesso em: 14 novembro 2024.

(2) Kardec, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 17ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1890. 395p.

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