segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

Kardec e as fases do Espiritismo

Na edição de dezembro de 1863 da Revista Espírita, Allan Kardec publicou um estudo histórico e profético detalhando a evolução do Espiritismo em seis períodos sucessivos, englobando desde a fase dos fenômenos físico iniciais até o seu objetivo final de transformação moral da humanidade.

Interessante que na mesma Revista Espírita, porém cinco anos antes, no ano de 1858, na edição do mês de Setembro, Kardec se refere a quatro fases, ou períodos distintos, na propagação do Espiritismo. São elas:

1.º ─ O da curiosidadeno qual os Espíritos batedores representaram o papel principal, visando chamar a atenção e preparar os caminhos.

2.º O da observação, no qual entramos, e que também pode ser chamado de período filosófico. O Espiritismo é aprofundado e se depura; tende para a unidade de doutrina e se constitui em Ciência.

E virão a seguir:

3.º ─ O período de admissãono qual o Espiritismo ocupará um lugar oficial entre as crenças universalmente reconhecidas.

4.º ─ O período de influência sobre a ordem socialEntão, sob a influência dessas ideias, a Humanidade conquistará um novo perfil moral. Essa influência é, desde já, individual. Mais tarde recairá sobre a coletividade, para felicidade geral.

É interessante notar, caro leitor, que cinco anos mais tarde, em 1863, Kardec demonstrando o dinamismo da Doutrina Espírita e o amadurecimento fruto do contato frequente com os espíritos superiores, assim como a publicação das obras básicas lhes proporcionaram ao ponto de ampliar os conceitos exarados em 1858 sobre a propagação da nossa querida Doutrina.

Assim, os seis períodos estruturados por Allan Kardec e publicados na Revista no ano de 1863 são:

1. Período da Curiosidade: marcado pelas "mesas girantes" e fenômenos físicos. Serviu para despertar a atenção pública e provar a existência dos Espíritos. Pode-se e deve considerar não somente os fenômenos físicos ocorridos na Europa, como também os observados a partir do mês de março de 1848, mais especificamente, dia 31, com o caso de Hydesville (EUA), envolvendo as irmãs Fox, explodindo, em seguida com as famosas mesas girantes, atraindo um público, em sua esmagadora maioria, despreocupados quanto aos significados que, destes “estranhos” fenômenos, poderiam emergir.

Para uns foi objeto de curiosidade passageira, um divertimento que se punha de lado como um brinquedo, para tomar um outro. Para muitos não encontrou senão indiferença e para grande número, a incredulidade.

Não nos surpreendamos. Eu perguntaria: o próprio Jesus convenceu o povo judeu com os seus milagres? Não foi ele tratado como um impostor? A sublimidade de seus ensinos e lições conquistaram-lhe graça perante as maiores autoridades da época? As curas, que obedecendo a leis da natureza, alterando células e tecidos do corpo físico, frente ao olhar límpido dos que as presenciaram, muito pouco modificou o íntimo dos próprios beneficiados. Para a maioria, os fenômenos de cura falavam aos olhos e não ao coração.

Vamos ao segundo período:

2. Período Filosófico: teve início com o lançamento de O Livro dos Espíritos em 1857. Desde esse momento em que se elevou à categoria de ciência moral, foi tomado a sério, pois falava ao coração e à inteligência e todos os que o estudavam a fundo e a sério, encontravam nele a solução daquilo que procuravam vagamente em si mesmos. Nesta fase, ainda se inclui a publicação de O Livro dos Médiuns, em 15 de janeiro de 1861, trazendo à lume, instruções práticas e métodos para orientar os agrupamentos mediúnicos a trabalhar com segurança, estabelecendo, desde então, diretrizes de maior segurança aos médiuns e dando a eles cidadania.

Nesta fase, segundo o próprio Kardec, em seis anos (1857-1863), a Doutrina avançou em adeptos muito rapidamente, pois com a difusão das obras já publicadas, passou a esclarecer sobre os verdadeiros interesses da Humanidade.

Nenhuma ideia nova, por mais certa e bela que seja, se implanta instantaneamente no espírito das massas. Todas, sem distinção, encontram oposição. Por que seria o Espiritismo uma exceção à regra geral? Às ideias, como aos frutos, é necessário tempo para amadurecer.

Como afirmava o romancista, poeta e dramaturgo francês Victor Hugo, “Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.

3. Período da Luta: Fase de oposição e choques de ideias. Enfrentou o dogmatismo religioso e os detratores da Doutrina. Quando este artigo foi publicado na Revista Espírita em 1863, encontrava-se a doutrina em seu período de luta, como afirma o próprio Kardec:

“Estamos, pois, em pleno período da luta, mas ele não acabou. Vendo a inutilidade do ataque a céu aberto, vai se tentar a guerra subterrânea, que já se organiza e começa; uma calma aparente vai se fazer sentir, mas é a calma precursora da tempestade; mas também, à tempestade, sucede um tempo sereno. Espíritas, sede-o, pois, sem inquietação, porque o resultado não é duvidoso; a luta é necessária, e o seu triunfo não será senão mais brilhante”.

 

4. Período Religioso: o inicio do quarto período se deu no dia 15 de abril de 1864 com a publicação em Paris do “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Segundo consta na introdução desta obra, focado nas consequências morais e nos ensinamentos evangélicos. Estabeleceu o Espiritismo não como uma religião de dogmas, mas como fé raciocinada e prática do bem.

Podemos incluir ainda nesta fase, o lançamento do livro O Céu e o Inferno, especialmente tratando e esclarecendo antigos dogmas estabelecidos pela Igreja que definia os destinos dos homens de maneira inexorável, para o Céu ou para o Inferno. Trata-se, desta forma, sem dúvida de uma obra que participa deste quarto período. Assim também, consideramos a última obra do pentateuco, A Gênese, como a finalização desta fase. Lembremos que nesta obra ímpar, Kardec e a espiritualidade superior aborda, com ênfase, a explicação espírita (Lei da Natureza) dos milagres de Jesus. 

5. Período Intermediário: Como consequência natural dos períodos precedentes, esta fase é assinalada como de transição e assimilação dos conceitos apresentados. Trata-se, como não podia ser diferente, de um período um tanto mais prolongado e que requererá o contato das pessoas com os ensinamentos doutrinários para posterior entendimento e compreensão. É razoável acreditar que ainda nesta fase, as lutas poderão aparecer aqui ou ali, principalmente dentro dos próprios núcleos familiares, como asseverou nosso Mestre que não vinha trazer a paz, mas sim a espada.

6. Período da Regeneração Social: é a fase que todos almejamos seja atingida como objetivo final do Espiritismo, ensejando a transformação da Humanidade, baseada no progresso moral, na solidariedade e na fraternidade como também assevera Kardec em seu estudo apresentado em Obras Póstumas sobre as Aristocracias, referindo-se à aristocracia intelecto-moral.

Necessariamente, parte de um entendimento íntimo de cada um que a mudança não pode ser imposta por regras nem leis estabelecidas, enquanto o egoísmo não for superado internamente e todos decidirem livremente pela solidariedade como opção consciente de evolução moral.

Embora este sério e lúcido estudo apresentado por Kardec, convenhamos que estabelecer datas-limites nestas fases finais, seria de grande ingenuidade. Creio que presentemente nos encontramos na fase transitória. E você, caro leitor concorda comigo ou acredita que já avançamos para o período de regeneração social? Eu não acredito.

Tendo Allan Kardec desencarnado em 31 de março de 1869, nos legou a missão de superar a “Fase Intermediária”. Ou seja, Kardec fez, e muito bem a sua parte. Quarenta e um anos depois, regressando como Chico Xavier, deu continuidade e amplitude, trazendo a Doutrina do século dezenove para os séculos vinte e vinte um.

Agora é conosco!

Acautelemo-nos e vigiemos firmemente para que os ingentes esforços dos que nos antecederam nos trabalhos de implantação e afirmação da Doutrina não sejam em vão, criando celeumas que dificultarão, porém, jamais impedirão, que avancemos para a fase da regeneração. Deixemos, portanto de lado as disputas por um “poder ilusório” como querer reviver o que o próprio homem engendrou séculos antes desfigurando o Cristianismo, e nos apeguemos ao convívio fraterno colocando em prática os ensinos e exemplos de Jesus. Somente assim iluminaremos os ainda escuros caminhos que procuramos seguir para nossa redenção espiritual.

Referências:

(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. Período de luta. Dezembro de 1863. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 519p.

(2) Kardec, Allan. Revista Espírita. Propagação do Espiritismo. Setembro de 1858. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 536p.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

Como reconhecer um povo civilizado.

Eminentemente perfectivel, há no espirito humano permanente inquietação, um anseio incontido de buscar novos horizontes, de superar limitações. Algo como um impulso do Criador estimulando a criatura a seguir adiante, rumo à sua gloriosa destinação.

Cumpre-se nessa eterna procura a Lei do Progresso, lei Divina magistralmente estudada por Allan Kardec na terceira parte de O Livro dos Espíritos.

Questionado se a civilização representa um progresso para a Humanidade, os espíritos superiores responderam, à questão 790 de O Livro dos Espíritos, que se trata de um progresso sim, porém incompleto. Ou seja, pelo prisma do entendimento atual do que seja civilização, apenas ela não bastará para estabelecer o progresso da Humanidade.

Como se vê, há que se apurar, aperfeiçoar a civilização, de modo a fazer que desapareçam os males que haja produzido, e isso somente ocorrerá quando o moral estiver tão desenvolvido quanto a inteligência.

Afirmar que alguém é civilizado, remete-se à pessoa bem-educada, que cultiva boas maneiras e é socialmente integrado ao que se pode considerar como normal no convencionalismo estabelecido para determinado período da sociedade.

Vejamos o conceito que a espiritualidade nos apresenta à questão 793 da obra básica primeira da codificação:

 Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?

R. “Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados, porque tendes feito grandes descobertas e obtido maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.”

A civilização é, portanto, um processo.

Processo sem volta, que visa tornar a sociedade, cada vez maior e mais complexa, melhor.

Nesse estado que podemos considerar uma civilização incompleta, embora como um estado transitório, ela é capaz de grandes avanços, assim como, produzir grandes males.

Somente com o progresso moral, poderá a humanidade inteirar-se de seu status de completa civilidade, fazendo cessar os males que gerou.

Conheçamos as características de uma sociedade que demonstra flagrante processo de civilização em suas bases:

          - aquela onde exista menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho;

- onde os hábitos sejam mais intelectuais e morais do que materiais;

- onde a inteligência possa se desenvolver com maior liberdade;

- onde haja mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas;

- onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de nascimento, por isso que tais preconceitos são incompatíveis com o verdadeiro amor do próximo;

- onde as leis nenhum privilégio consagrem e sejam as mesmas, assim para o último, como para o primeiro;

- onde com menos parcialidade se exerça a justiça;

- onde o fraco encontre sempre amparo contra o forte;

- onde a vida do homem, suas crenças e opiniões sejam melhormente respeitadas;

- onde exista menor número de desgraçados;

- enfim, onde todo homem de boa vontade esteja certo de lhe não faltar o necessário.

Querido leitor, quão distante estamos de preencher os requisitos desta lista?

É necessário que nos compenetremos que a Humanidade progride, por meio dos indivíduos que pouco a pouco se melhoram e instruem. Quando estes preponderam pelo número, tornarão líderes e arrastarão muitos.

É por isso que Jesus na missão de implantar o Reino de Deus no coração do homem, serviu e ensinou até o derradeiro sacrifício, exaltando a importância da individualidade, no aperfeiçoamento comum. O homem modificado, modifica a sociedade.

Espíritos puros e perfeitos, verdadeiros prepostos do Criador, com largas responsabilidades que envolvem o progresso de imensas coletividades, orientam-nas em experiências compatíveis com suas necessidades evolutivas.

Na Revista Espírita de Janeiro de 1863, Um Espírito Protetor, traz-nos luz sobre este aspecto:

“Em certas épocas, e podemos dizer em momentos previstos, designados, surge um homem que abre um caminho novo, que escarpa os rochedos áridos de que se acha semeado o mundo conhecido da inteligência. Arma-se de coragem, pois esta lhe é necessária para lutar corpo-a-corpo contra os preconceitos, contra os usos que lhe foram transmitidos. (...) Chegado a este ponto, em que a luz escapa bastante forte do círculo do qual é o centro, todos os olhares se voltam para ele; ele assimila todo o princípio inteligente e bom; reforma e regenera o princípio contrário, a despeito dos prejuízos, apesar da má-fé e malgrado as necessidades; chega ao seu objetivo, faz a Humanidade transpor um grau e conhecer o que não era conhecido.”

 

São os gênios na Humanidade. Gênios da espiritualidade.

Fazemos aqui um destaque para a justiça da reencarnação que é amplamente realçada pelo progresso dos povos. Por ela, todos, indistintamente, possuem igual direito à felicidade, porque ninguém fica privado do progresso. Os espíritos que viveram em tempos primitivos de civilização, podem regressar no seio do mesmo povo, ou de outro, em tempos de maior modernidade, tirando proveito da marcha ascensional.

Outras crenças que defendem o sistema da unicidade da existência, apresentam neste tema, extrema dificuldade de explicar como se pode verificar o progresso dos povos ao longo dos séculos.

Segundo nos ensina o Espiritismo, das conquistas atuais, os espíritos que compuseram as gerações passadas, são beneficiados pelas melhores condições do planeta e podem assim aperfeiçoar-se no foco da civilização.

Daí fundamental que trabalhemos hoje com muita responsabilidade e afinco para construirmos uma sociedade e um mundo mais justo e melhor em todos os aspectos.

Ele, o planeta Terra, será no futuro, como espíritos reencarnados, nossa moradia novamente, e, a menos que muito nos dediquemos e lutemos para sua melhora, será grande a chance de encontrarmos a casa em ruína e termos que recomeçar tudo de novo.

 

(*) Todos os grifos são nossos

Referências

1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

(2) Kardec, Allan. Revista Espírita. Lei do Progresso. Janeiro de 1863. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 519p.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

 

Sentinela vigilante.

Falando sobre a presença de Deus em cada um de nós, um Espírito Protetor (1860), em o Evangelho Segundo o Espiritismo explica como isso pode ser possível. E vejam que está se referindo aos espíritos em todo o Universo. Ele assim se expressa:

“Ora! somos tão numerosos na Terra, que Deus não nos pode ver a todos.” Escutai bem isto, meus amigos: Quando estais no cume da montanha, não abrangeis com o olhar os bilhões de grãos de areia que a cobrem? Pois bem: do mesmo modo vos vê Deus.”

Uma maravilhosa comparação! Somos todos grãos de areia sob o complacente olhar Divino. E da mesma maneira que os grãos de areia (nós) se movem ao sabor do vento que os mistura, Deus nos deixa assim livres, com o uso do livre-arbítrio para agirmos.

Para nos proteger, principalmente de nós mesmos, ele concede à sua criatura, a “sentinela vigilante”, mais conhecida como consciência.

Sobre como essa sentinela age sobre nós, elucida:

“Somente bons conselhos ela vos dará. Às vezes, conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal. Ela, então, se cala. Mas, ficai certos de que a pobre escorraçada se fará ouvir, logo que lhe deixardes aperceber-se da sombra do remorso. Ouvi-a, interrogai-a e com frequência vos achareis consolados com o conselho que dela houverdes recebido.”

 

Vamos repetir com nossas palavras, para auxiliar no entendimento: por incrível que pareça, conseguimos fazer calar a consciência com nossas impensadas atitudes que ferem as leis Divinas. Desses erros, às vezes mais ou menos graves, advém o sofrimento e quando, tomados de alguma lucidez, nos arrependemos.

Deste movimento, qual uma pequena fresta luminosa que se esforça para romper a escuridão de nossos corações, pela forja de abençoado remorso, o espírito emerge para nova e santa oportunidade. Criamos então, ambiente psíquico propício para ouvirmos nossa vigilante sentinela, a qual, na representação do Divino no íntimo de cada um de nós, se manifesta. Basta queiramos ouvi-la.

Paira, assim, muito acima das leis humanas, transitórias e imperfeitas, a Legislação Divina, que independe de sistemas e autoridades policiais e jurídicas, porquanto vige na intimidade de nossa própria consciência, premiando-nos com a felicidade quando a observamos ou corrigindo-nos com o sofrimento, quando dela nos distanciamos.

Espíritos mais evoluídos, expressando uma consciência isenta de remorsos, caminham com mais segurança em direção ao nobre destino que a todos nos aguarda: a pureza do Espírito.

André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, estabelece claramente a relação da presença da consciência desperta com a deflagração no ser, dos princípios da Lei de Ação e Reação, Vejamos:

“Incorporando a responsabilidade, a consciência vibra desperta e, pela consciência desperta, os princípios de ação e reação funcionam, exatos, dentro do próprio ser, assegurando-lhe a liberdade de escolha e impondo-lhe, mecanicamente, os resultados respectivos, tanto na Esfera física quanto no Mundo Espiritual”.

Quanto mais nos esclarecemos com a luz dos postulados espíritas, mais nos tornamos responsáveis. Nossa percepção da “consciência” indicando para onde devemos seguir, se dilata à medida que crescemos em valores espirituais nobres.

Vamos concluindo nosso humilde raciocínio trazendo às nossas reflexões, do livro Emmanuel, psicografado por Chico Xavier e ditado pelo espírito Emmanuel, a seguinte pérola espiritual sobre a consciência:

“Na história de todos os povos, observar-se a tendência religiosa da Humanidade; é que, em toda personalidade existe uma fagulha divina – a consciência, que estereotipa em cada espírito a grandeza e a sublimidade de sua origem; no embrião, a princípio rude nas suas menores manifestações, a consciência se vai despindo dos véus de imperfeição e bruteza que rodeiam, debaixo de muitas vidas do seu ciclo evolutivo, em diferentes círculos de existência, até que atinja a plenitude do aperfeiçoamento psíquico e o conhecimento integral do seu próprio “eu”, que, então, se unirá ao centro criador do Universo, no qual se encontram todas as causas reunidas e de onde irradiará o seu poema eterno de sabedoria e amor. É a consciência, centelha de luz divina, que faz nascer em cada individualidade a ideia da verdade, relativamente aos problemas espirituais, fazendo-lhe sentir a realidade positiva da vida imortal, atributo de todos os seres da criação”.

Muito bem!

Aprendamos, à vista disso, que se encontra latente em nosso íntimo tudo o de que necessitamos para crescer em plenitude. Reconhecer que todo dia poderemos avançar, mesmo com todos os problemas que nos cerquem, porque, de certa forma, em nós próprios está a resolução, basta que nos adequemos aos valores sublimes do Evangelho de Jesus.

Referências:

(1) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 410p.

(2) Luiz, André. Evolução em dois mundos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 8ª ed. Brasília. Editora FEB, 1985. 219p.

(3) Emmanuel. Emmanuel. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 28ª ed. Brasília. Editora FEB, 1938. 208 p.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

 

Nos grandes testemunhos da vida

E todos os seus conhecidos e as mulheres que juntamente O haviam seguido desde a Galiléia, estavam de longe, vendo estas cousas.”       Lucas, 23: 49.

 

A solidão de Jesus no Calvário é uma lição viva aos discípulos do Evangelho, em todos os tempos. Na prisão, na aplicação dos açoites, na via crucis e na própria Cruz, todos que foram beneficiários se mantiveram de longe.

Tal situação guarda uma valiosa mensagem, uma profunda lição.

A esse respeito, o amorável benfeitor Emmanuel, em emocionante página registrada pelo médium Chico Xavier nos ilumina dizendo:

“Volteavam-Lhe em torno dos passos, não só os admiradores, os aprendizes, os curiosos, mas também os doentes da véspera, reintegrados no tesouro da saúde, à força de Sua Dedicação Divina. Mas no grande momento, quando as sombras do martírio Lhe amortalhavam o coração, todos os participantes de Suas caminhadas se recolheram à distância da Cruz, contemplando de longe. Não se ouviu a voz de nenhum beneficiado, ao pé do Calvário. Ninguém Lhe recordou, no extremo instante, as Obras Generosas, perante os algozes que O acompanhavam. E o ensinamento ficou para que cada aprendiz, no decurso do tempo, não esquecesse a necessidade do próprio valor.”

Nos grandes testemunhos da vida, ainda que tenhamos alguém pegando em nossa mão, o aprendizado, a aquisição da lição é individual. A decisão de aprender é individual. Os patrimônios espirituais de cada um de nós, até por esta razão, são intransferíveis.

Se impõe refletir, quais potencialidades do espírito imortal precisamos desenvolver.

Ninguém nunca estará abandonado, sozinhos por completo. O Cristo jamais esteve abandonado. Imagine a plêiade de espíritos superiores que o acompanhou no drama do Calvário.

E a lição deve ressoar por muito tempo “...não esquecesse a necessidade do próprio valor.”

Assim também nós, nunca estaremos sozinhos, mas na sensação de experiência, fisicamente estaremos sozinhos, para aferirmos nossos valores. Como nos alimenta o espírito esse divino conhecimento.

Conscientizar que não viveremos à sombra de um Mestre sem desenvolver nossas qualidades. Ninguém é e nem será, completamente dependente do outro para sempre.

Aprender a equilibrar nossas energias conosco mesmo. Para o Espiritismo os nossos amores nos acompanham, nos sustentam, nos complementam a jornada, mas nós não podemos caminhar dependentes deles para sempre.

Às vezes a vida nos “prega peças” nos privando da convivência de quem amamos. Um filho, o companheiro afetivo, o amigo de lide espírita, aquela pessoa que por longo tempo foi o esteio. Ausências que nos abalam os recessos da alma. Compreendamos que, assim como nós próprios, todos eles, buscam por novas posições e experiências que enriqueçam seus talentos.

Nos grandes desafios da jornada terrena, portanto, sem hesitar, entreguemo-nos à fé, refugiemo-nos em Deus, confiemos em Deus e esperemos por Deus, porque, acima de todas as tempestades e quedas, tribulações e desenganos, Deus nos sustentará.

E porque desenvolvemos essa confiança raciocinada que nos faz acalmar nas turbulências da vida, é que o espírito imortal, segue em frente.


Referência:

(1) Emmanuel. Alma e Luz. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 7ª ed. Araras. Editora IDE, 2018. 137p.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

Encarnar na Terra não é para amador!

Em que pese a reconhecida importância que representa uma reencarnação na Terra, nos é perfeitamente lícito afirmar que, encarnar neste planeta não é para amador não!

Das observações que faço dos fatos rotineiros do dia-a-dia, assim como das leituras atentas das obras espíritas, enfatizando as  de Chico Xavier, descrevendo o martírio de irmãos que aqui erraram; das notícias veiculadas pelos órgãos de comunicação, que normalmente enfatizam as tragédias de toda ordem; a corrupção quase generalizada entre aqueles que deviam bem nos representar; a violência de todos os matizes contra os outros e a si mesmo; a imoralidade a campear em chiques gabinetes e tantos outras, posso repetir tranquilamente: encarnar na terra não é para espírito amador.

Entretanto, não nos iludamos, pois se a humanidade como um ser coletivo manifesta desordem, as leis que presidem aos destinos do planeta se expressam com absoluta harmonia. 

Como vai afirmar Emmanuel, no livro Roteiro, psicografado por Chico Xavier,

“(...)ante a grandeza infinita da vida que nos cerca (na Terra), não passamos de crianças no conhecimento superior.”

Crianças aliás, muito indisciplinadas que, vire e mexe, precisam da antiga (creio eu, tem feito falta) “energia” com que os antigos professores (saudades) lidavam com estas situações em sala de aula.

Mas o assunto que pretendo desenvolver neste artigo, com todos estes considerandos acima em mente, trata-se da real dificuldade que é encarnar na Terra, como bem se expressa Dona Laura no capítulo 47 – A volta de Laura - no livro Nosso Lar, como sendo a “...reencarnação sempre uma tentativa de magna importância”.

O verbo usado na frase destacada “tentar” já diz tudo.  

Será que conseguiremos?

Cumpriremos algo dos nossos deveres?

Nossa realização, enquanto espíritos profundamente necessitados será nula, parcial ou avançada?

Temos de nos compenetrar que habitamos transitoriamente este maravilhoso educandário, limitado pelas nossas imperfeições. E é provável ser este o motivo da incapacidade de nossa mais ampla realização no bem. Algo como querer, mas não poder; ansiar, mas não conseguir...

Cabe aqui belo e interessante ensino do Dr. Inácio Ferreira em obra psicografada por Carlos Baccelli – Cartas do Dr. Inácio aos espíritas – que diz:

“É como se, interiormente, ainda não fossemos fortes o bastante. Temos caminhado, mas nos falta maior determinação para que possamos vencer a enorme distância entre o que somos e o que precisamos ser.”

Partamos então, a meu ver, para o ponto principal deste emaranhado de pensamentos que gostaria pudesse ser útil a alguém que lhe passar os olhos.

Para nossa reflexão e aprendizado desejo citar, em síntese, a experiência do irmão Otávio que se encontra registrada na obra Os Mensageiros, transmitido por André Luiz e psicografado pelo apóstolo Chico Xavier.

Em sua narrativa, Otávio possuía consciência de si mesmo e era superiormente informado sobre as leis da vida.

Permita-me transcrever importante trecho que nos esclarece sobre a situação de Otávio:

“Não desconhecia o roteiro certo, que o Pai me designava para as lutas na Terra. Não possuía títulos oficializados de competência; entretanto, dispunha de considerável cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é de maior importância que a cultura intelectual, simplesmente considerada. Tive amigos generosos do plano superior, que se faziam visíveis aos meus olhos, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria e, no entanto, cai mesmo assim, obedecendo à imprevidência e à vaidade.”

Referindo-se a estas condições acima apresentadas, que, a princípio, tornava-lhe extremamente favorável sua trajetória sobre a Terra, Otávio, aflito, lamenta-se constatando:

“Os mordomos de bens da alma estão investidos de responsabilidades pesadíssimas.”

E pesaroso nos informa:

“O missionário é obrigado a caminhar com um patrimônio de certezas tais, que coisa alguma o exonera das culpas adquiridas.”

Sugiro fortemente a leitura de todo o capítulo 7 desta obra que descreve a queda de Otávio que retornou à pátria espiritual antes de completar 40 anos de idade em situação deplorável.

Veja que estamos falando de um irmão que, segundo é revelado na obra, se preparou por 30 anos consecutivos para encarnar na Terra, desejoso de saldar contas e elevar-se alguma coisa.

Verifique que o tempo de preparação no mundo espiritual, proporcionalmente, foi maior que o tempo que permaneceu encarnado, se considerarmos, como nos elucida o próprio André Luiz, que o espírito readquire sua autonomia, despertando para a existência física, no período da adolescência. Ainda assim, merecedor de toda esta preparação, encarnado, Otávio ignorou estas verdades eternas.

Recordo as palavras de Jesus, em Lucas 23:31, sendo levado à crucificação, alertando:

“Pois, se fazem isto com a tronco verde, o que acontecerá com o lenho seco?"

Para finalizar, deixo um questionamento, que normalmente dirijo aos companheiros que frequentam nossas reuniões de estudo no Grupo Espírita da Fraternidade: Caso não fossemos abençoados pelo conhecimento do Espiritismo que tanto nos tem felicitado, o que estaríamos fazendo agora? Como estariam nossos caminhos? E nossas escolhas? Teriam sido as mesmas?

Bem, de posse destas reflexões, procuremos avançar, sem a ilusão que estejamos imunes às circunstâncias difíceis e desafiadoras que sempre estaremos sujeitos enquanto necessitarmos encarnar na Terra.

(*) Todos os grifos são meus.

Referências

(1) Emmanuel. Roteiro. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro. Editora FEB, 9ª Edição,1994. 170p.

(2) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.

(3) Ferreira, Inácio. Cartas do Dr. Inácio aos Espíritas. Psicografado por Carlos A. Baccelli. 1ª ed. Uberaba. Editora LEEPP, 2008. 240p

(4) Luiz, André.  Os Mensageiros. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 33ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 268p.

  Kardec e as fases do Espiritismo Na edição de dezembro de 1863 da Revista Espírita , Allan Kardec publicou um estudo histórico e proféti...