segunda-feira, 29 de junho de 2026

 

Por que Jesus pouco falou sobre reencarnação?

Creio, sem sombra de dúvida, que o principal motivo de Jesus não se referir tão claramente à reencarnação, tenha sido a nossa ignorância, considerando que Ele falava aos espíritos que, encarnados, o ouviam e também para os que, como nós, após passados dois mil anos, ainda não o compreendemos. Palavras de Vida Eterna.

Atualmente, pelas mais diversas razões, milhares de espíritos, na carne ou fora dela, ainda não compreenderam o princípio da reencarnação.

Sabemos que a certeza da reencarnação é apanágio de poucas almas na Terra a tal ponto de Chico Xavier certa vez afirmar que os espíritos que guardam a certeza deste princípio em seus corações não são almas originárias da Terra.    

Como princípio universal, a reencarnação é um tema que concerne à verdade e a verdade, a pouco e pouco, se revela de modo irreversível.

Jesus, portanto, não poderia, como não o fez, falar de um aspecto que, para ser entendido, exigiria da parte dos que o ouviam a compreensão mais bem delineada sobre a vida futura.

Compreensão sobre a Vida Futura! Entender esta razão torna-se fundamental para entender porque Jesus assim agiu.

O Mestre, mais que qualquer um, sabia que todos os dogmas das religiões se alicerçam, necessariamente, na vida futura; ela representa a pedra angular de toda crença. Entretanto, a ideia que muitos faziam da vida futura era muito vaga, incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos. Isso em razão das religiões não serem claras e nem apresentarem tal como ela, vida futura, se apresenta, de onde resulta muitas dúvidas e até a incredulidade.

Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo acrescenta que Jesus julgou conveniente não apresentar, aos homens de sua época, a luz completa, percebendo que eles ficariam deslumbrados, visto que não a compreenderiam. Limitou-se a, de certo modo, apresentar a vida futura apenas como um princípio, como uma lei da Natureza a cuja ação ninguém pode fugir.

Dezoito séculos depois, estando o homem mais maduro para apreender certas facetas da verdade, surge o Espiritismo que completa o ensino do Cristo dando materialidade às dúvidas da existência da vida futura, pois os próprios espíritos desencarnados que lá se encontram, vem descrevê-la sob seus diversos aspectos.

Na maneira pela qual nos apresenta o futuro reside o triunfo do Espiritismo. O quadro que apresenta é tão claro, tão simples, tão lógico, tão conforme à justiça e à bondade de Deus, que involuntariamente dizemos: Sim, é bem assim que deve ser; é assim que eu imaginava; e, se não havia acreditado, é porque outrora me tinham mostrado a vida futura de outro modo.

Muito mais que os de antigamente, os homens do presente querem compreender, pois só se duvida daquilo que não se compreende.

Ademais, Jesus sempre pregou e prega ao espírito imortal e não somente o homem como ser encarnado. O espírito não tem muitas vidas; o espírito vivencia múltiplas experiências dentro da Vida que é única. Neste contexto, a reencarnação se configura como etapas que o espírito cumpre em sua infinita caminhada.

Portanto, queridos leitores, tendo seu apogeu no diálogo que manteve com Nicodemos, o assunto Reencarnação, se não foi mais claramente exposto por Jesus, é porque Ele teve seus motivos, os quais devemos procurar melhor compreender! 

 

Referência

(1) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 410p.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

 

Formação da alma coletiva do Brasil.

Com rara felicidade, o espírito Humberto de Campos, na monumental obra Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, psicografado por Francisco Cândido Xavier, descreve os bastidores espirituais da formação da alma coletiva do nosso querido país.

Em primeiro lugar, para formar a base da sociedade fraterna da pátria brasileira de glorioso porvir, surgiram os índios, que eram os simples de coração aguardando uma era nova, com o seu largo potencial de energia e bondade. Em segundo lugar,  viriam os escravos, como a expressão dos humildes e dos aflitos, para a formação da alma coletiva de um povo bem-aventurado.

Jesus, assim se refere a Ismael na explicação das características dos espíritos que viriam para a da terra do Cruzeiro:

“Abriga aí, na sagrada extensão dos territórios do país do Evangelho, todos os infortunados e todos os infelizes. No meu coração ecoam as súplicas dolorosas de todos os seres sofredores, que se agrupam nas regiões inferiores dos espaços próximos da Terra. Agasalha-os no solo bendito que recebe as irradiações do símbolo estrelado, alimentando-os com o pão substancioso dos sofrimentos depuradores e das lágrimas que lavam todas as manchas da alma.”

Esses infortunados e sofredores eram antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências sombrias. Como se vê, as almas que por aqui aportariam estavam recebendo sublime oportunidade de expiação de seus erros transatos.

Grande maioria destas almas pelas suas renúncias, reencarnaram primeiramente nas costas da África e juntas a outros Espíritos em prova, formaram a falange abnegada que viria para o Brasil como escravos. Chegavam ao Brasil, miseráveis e desditosos, como se fossem animais bravios sem consciência. Basta recordar que o Brasil recebeu, aproximadamente, 4,8 milhões de africanos escravizados durante trezentos anos de tráfico.

 

Foi o próprio Cristo que explicou para Ismael como deveria ser a participação dos negros como povo formador da alma brasileira:

“Havia eu determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia, para que essa cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas, aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violências de qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois, verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas determinações.”

Jesus, o Divino Pastor, atendendo o comando do Pai Celestial, tinha tudo planejado desde há muito, preparando a reencarnação de espíritos evoluídos em uma miscigenação que só o princípio da reencarnação nos faz entender:

“(...) mais tarde, ordenarei a reencarnação de muitos Espíritos já purificados no sentimento da humildade e da mansidão, entre as raças oprimidas e sofredoras das regiões africanas, para formarmos o pedestal de solidariedade do povo fraterno que aqui florescerá (Brasil), no futuro, a fim de exaltar o meu Evangelho, nos séculos gloriosos do porvir.”

Milhões de almas para aportarem no Brasil, a fim de cumprirem a determinação superior, reencarnaram no continente Africano para alcançar a pátria do Evangelho por vias marítimas.

Pensando também no aspecto da formação religiosa, é digno de destaque o fato de Portugal ser uma nação eminentemente católica à época do descobrimento do Brasil. Apesar dos desvios seculares patrocinados pela Igreja Católica ao longo dos séculos, era ela, sem dúvida, o maior reduto do Cristianismo do mundo a quem fora conferido a condição de depositária dos princípios cristãos. 

Embora Portugal, como todas as demais nações, possuíam elementos da cobiça, da inveja e da ambição nos tempos das conquistas marítimas, o povo lusitano era portador de honradez aliada a grandes qualidades de valor e de sentimento, que a habilitaram colonizar o Brasil.

Tal condição, somada à miscigenação das raças que deu lugar nas terras do Cruzeiro, propiciou clima extremamente propício para que o Espiritismo, mais tarde, pudesse germinar. Essa situação deve ser especialmente considerada, pois outras nações americanas foram colonizadas por nações europeias com diferente formação religiosa, como por exemplo os Estados Unidos, colonizados pela Inglaterra, onde difundiu-se o Protestantismo. Isso nos leva a pensar que se outra nação, que não a Portuguesa, houvesse colonizado o Brasil, talvez o Espiritismo não tivesse encontrado espaço para sua propagação.

Dessa forma, a Doutrina Espírita encontrou no Brasil acolhimento religioso e cultural para a revivescência do Cristianismo. Na esteira destas condições, é razoável entender o porquê a nação portuguesa é, hoje, na Europa, o país que mais acolhe os ventos sublimes e renovadores da Doutrina Espírita.

Notemos que desde sua origem espiritual a alma coletiva do Brasil já era de formação heterogênea prenunciando a grande confraternização do porvir, caracterizando o coração do mundo que a todos irá acolher modelando a obra imortal do Evangelho de Jesus.

 

(*) Todos os grifos são nossos

 

Referência

(1) Humberto de Campos. Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 38ª ed. São Paulo. Editora FEB, 1938. 238p.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

                              Afetos que vem e que vão

Conhecer-se é o grande desafio do ser humano. Sair de si mesmo deve ser o primeiro passo.

Fruto de um longo amadurecimento, o ser reconhece que tudo o que viveu até então foi importante, não renega as etapas que auxiliaram na sua formação, mas sabe que não deve parar por aí.

A hora é de seguir adiante.

E seguir adiante é custoso, às vezes.

As etapas vencidas ficam pra trás e levam consigo anteriores companhias. A família espiritual cresce e de acordo com os caminhos que escolhemos, muitos vão ficando pelo caminho para também viverem suas experiências adquirindo discernimento e maturando-se interiormente.

Nos preparar para viver este difícil movimento de separação das almas afetas a nós que também lutam pelo próprio crescimento, ainda que de forma transitória, trata-se de tarefa intransferível.

Mudanças necessárias! Tão necessárias que ninguém evolui sem elas, pois ensejam atritos, desajustes e afastamentos, que no lúcido dizer de Emmanuel é “o clima da adversidade educativa” que nos obriga a revisar e recomeçar, nos tentames da elevação própria.

São mudanças internas que nos conduzem, invariavelmente, às mudanças externas.

Afinal, aquele que corrige a vida por dentro manifesta, cedo ou tarde, a luz que já conseguiu acender.

Ao nos elevarmos, no sentido espiritual, nosso campo vibratório naturalmente tende a mudar. Respiramos novas dimensões em que o espírito pode habitar, passando a compartilhar novos afetos que compartilhem do mesmo ideal, novos ambientes com renovados e saudáveis hábitos, incorporados à custa de esforço ao longo do tempo. Sem que isso signifique sermos frios e indiferentes a todos os laços que construímos ao longo de nossa trajetória evolutiva. Pelo contrário, devem ser motivo de eterna gratidão. 

Sejamos gratos, da mesma forma, ao carinho dos Espíritos generosos, encarnados ou desencarnados anônimos, que sempre nos amparam nas dificuldades, como verdadeiros anjos tutelares vindos do sublime espaço.

O Espiritismo nos esclarece sobre a grande família universal a que todos fazemos parte, mas que muito pouco ainda conseguimos entender, principalmente em nossa vivência diária. Jesus, ao se referir a este assunto, provocou indignação e desentendimento ao falar: - "Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?" - em Mateus 12:48.

Infelizmente, ainda não cultivamos espaço mental para esta compreensão. Quando muito, a família consanguínea nos toma todo o tempo na vida na Terra. Muito pouco ou quase nada, de sentido transcendente, permitimo-nos vivenciar. O outro é tão somente o outro.

No clima do egoísmo será muito difícil, para qualquer um, estabelecer metas para o autoconhecimento. Espírito algum se burilará fechando os olhos para os que lhes rodeiam.

Mesmo como espírito puro, não esqueçamos que o próprio Jesus, governador espiritual do planeta Terra, desceu par auxiliar e servir e mesmo quando encarnado, não dispensou o auxílio dos companheiros de apostolado.

E Jesus, consoante ensino espírita, é nosso modelo e guia.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

 

O Tempo e o valor essencial do aproveitamento justo.

 

Às vezes penso que tenho desperdiçado muito meu precioso tempo.

Hã! Quem dera fosse meu. O tempo não pertence a ninguém. Ele é Divino, portanto, é de Deus.

O tempo, entendido como elaboração ou construção subjetiva encontra em Santo Agostinho e Kant, seus mais ilustres teóricos, vastas definições.

Santo Agostinho dizia ser muito difícil discorrer sobre o tempo e o desenvolve como subjetivo, isto é, como a maneira (humana) de se relacionar com as coisas que passaram, passam e passarão.

Diz o filósofo que é Deus mesmo o criador do tempo e "não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo" (Santo Agostinho, 1987, p.217). Quando se interroga sobre o que seria tempo, discorre sobre a questão da seguinte forma:

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. (Santo Agostinho, 1987, p.218)”

Para Immanuel Kant, o tempo é homogêneo, subjetivo e uma forma pura da intuição. O tempo não existe fora do espírito, isto é, constitui-se como uma forma de representação a priori da mente humana, sem a qual os objetos não seriam organizados numa ordem e sucessão.

Afora essas concepções filosóficas, vivendo sobre a Terra quase sempre nos distraímos com problemas inúteis que, em sua maioria, criamos para nós próprios. Assim passa uma semana, um mês, um ano e quando abrimos os olhos, enxergamos que, em termos espirituais, nada ou muito pouco saímos do lugar.

Quando criança a ideia de tempo era que tudo demorava muito pra acontecer, para chegar. A criança desconhece o valor do tempo, ou talvez, aproveita-o melhor que o adulto, na sua concepção do que seja indispensável. Os anos, os meses pareciam infindáveis. De um Natal para o outro parecia um século!

Hoje é um piscar de olhos. Tudo é rápido, veloz, pra ontem.

Como nunca, agora, no entardecer da existência, percebo que a vida na Terra tem passado muito depressa. Talvez em meus verdes anos, que ficaram no tempo passado, viver era mais valioso que sobreviver. Hoje, sobreviver, nos abstruí a visão de quase tudo. Isto, acho, altera a noção deste tesouro divino.

Aquele que procura viver sente, em sua alma, o tempo e este não se torna pesado. Quem somente sobrevive, não tem tempo pra nada. No fim, não vê a vida passar. Parece que o tempo foge, aterrorizando a sensação de que não haverá tempo para tudo que almejamos fazer.

A semana é reduzida para o que nos cabe fazer.

Se o tempo é implacável, destrutivo e o grande ladrão da beleza, como dizia Shakespeare, é também um grande professor, que na didática silenciosa dele mesmo, coloca as coisas no lugar e ensina sem ferir.

Se rouba a beleza corpórea, o tempo é capaz de lapidar a alma que deseja ser lapidada e a embeleza, magnífica. Seu formol pontiagudo são as quase infinitas experiências da vida, as quais, vão pouco a pouco, despertando as faculdades da mente.

Em Nosso Lar encontramos, na fala de Tobias, sobre bem utilizar o tempo somado à dedicação espiritual:

“Há servidores que, depois de quarenta anos de atividade especial, dela se retiram com a mesma insipiência da primeira hora, provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual, assim como existem homens que, atingindo cem anos de existência, dela saem com a mesma ignorância da idade infantil. Tanto é precioso o conceito de sua mamãe – disse Tobias – que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus. Nos primeiros, transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno; nos segundos, em látegos de tormento e remorso, como se fossem entes malditos. Cada filho acerta contas com o Pai, conforme o emprego da oportunidade, ou segundo suas obras.”

Para estes, o tempo passou e nem perceberam.

Emmanuel, no livro Ceifa de Luz, embora sem querer defini-lo, destaca o caráter mais importante do tempo: o tempo que se perde e que nunca retornará.

“Na caminhada humana, afetos e haveres, oportunidades e valores, lições e talentos voltam, de algum modo, às nossas mãos, através das reencarnações incessantes, mas a hora perdida é um dom de Deus que não mais voltará.”

Por milênios temos sido viajores do tempo, sem a devida maturidade para melhor utilizá-lo. Chega! É hora de acordar e empregar o tempo diariamente de todas as maneiras que nos faça crescer como seres humanos que somos, burilando nossa espiritualidade.

O tempo inutilmente empregado é, de fato, uma perda irremediável.

O inolvidável médium mineiro, Chico Xavier no livro O Evangelho de Chico Xavier, também faz coro nos informando da maior queixa que tem ouvido de espíritas desencarnados:

“dos companheiros espíritas desencarnados que tenho visto, nenhum está satisfeito consigo mesmo, todos eles têm se queixado da sua falta de empenho no melhor aproveitamento do tempo.

Pelo que vimos, o negócio é não perder tempo à toa!

E não adiante o homem rogar mais tempo à vida, porque por certo ela responderá:

- O teu tempo já foi, agora é muito tarde!

E o tempo pedindo contas ao homem, passará a recolher as folhas esparsas dos dias com suas experiências mal aproveitadas.

 

Todos os grifos são meus!

Referências:

(1) Santo Agostinho. Confissões São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).

(2) Kant, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).

(3) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.

(4) Emmanuel. Ceifa de Luz. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. Rio de Janeiro. Editora FEB, 1979. 151p.

(5) Baccelli, Carlos A. O Evangelho de Chico Xavier. 1ª ed. Casa Editora Espírita Pierre Paul Didier, 2000. 171p.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 Tudo se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Na concepção espiritual, nada, absolutamente coisa alguma perece no Universo.

Alguém realmente acredita que, na condição de espíritos falhos que somos, teríamos condições de eliminar algo criado por Deus?

Um entendimento tacanho deste somente reflete a grandiosa ignorância a respeito de tudo que nos envolve e, principalmente, da própria compreensão sobre Deus.

Após o “ser” receber o sopro Divino, criatura alguma falece e nem mesmo um seu igual é capaz de tirar a vida dele.

O que conseguimos, na verdade, é restituir à natureza os elementos que compõem a criatura.

O que consideramos, equivocadamente, como morte, expressa, em minha opinião, a pobreza extrema da linguagem humana para tentar explicar o que ainda não compreendemos e a incapacidade evolutiva para entendermos a grandiosidade da Vida (com V maiúsculo).

Tudo, absolutamente tudo que seja considerado matéria, inclusive os corpos dos de todos os seres vivos, é restituído à natureza. Assim que está restituição ocorre, inicia-se prontamente, um processo de reutilização, em pequena ou em ampla escala, na formação e recomposição de novas estruturas materiais.

Kardec, se expressa assim na Revista Espírita de 1863, em refutação a um padre sobre a reencarnação:

“É verdade que a Química é uma ciência diabólica, como todas as que fazem ver claro onde queriam que se visse turvo, mas, seja qual for a sua origem, ela nos ensina uma coisa positiva, é que o corpo do homem, como todas as substâncias orgânicas animais e vegetais, é composto de elementos diversos, dos quais os principais são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono. Ela ainda nos ensina ─ e notai que é um resultado da experiência ─ que com a morte, esses elementos se dispersam e entram na composição de outros corpos, de tal forma que, ao cabo de um certo tempo, o corpo inteiro é absorvido”.

E acrescenta:

“Suponhamos, então, senhor cura, que sejam plantadas batatas nas proximidades de um sepulcro. Essas batatas vão alimentar-se dos gases e dos sais provenientes da decomposição do corpo do morto; essas batatas vão engordar galinhas; vós comereis essas galinhas, as saboreareis, de tal sorte que o vosso próprio corpo será formado de moléculas do corpo do indivíduo morto, e que não deixarão de ser dele, posto tenham passado por intermediários. Então tereis em vós partes que pertenceram a outros. Ora, quando ressuscitardes ambos, no dia de juízo, cada um com seu corpo, como fareis? Guardareis o que tendes do outro ou o outro retomará o que lhe pertence, ou ainda tereis algo da batata e da galinha?”

Maravilha de argumentação do Codificador da Doutrina Espírita! Aplausos....

Se trouxermos à discussão o aspecto espiritual, aí então, somos mais incapazes de qualquer ameaça ao patrimônio vivo criado por Deus.  

O Espírito, desde sua criação, ainda como princípio espiritual, que por longos períodos de tempo guardaremos ignorância total de como isso se dá, passa a adquirir uma das características do Criador, que é a imortalidade. Ou seja, o processo de desenvolvimento da mônada espiritual passa então a ser ininterrupto por toda a eternidade. 

Neste infinito processo de crescimento, o ser espiritual obedecendo a leis filogenéticas, vai revestindo-se de corpos para possibilitar, no futuro, que é sempre o hoje que vivemos, a sua evolução. 

Os vários corpos então que revestem o espírito habitam diferentes dimensões estando e ao mesmo tempo não estando o espírito integrado em todas elas “habitando” nestes corpos.

Habitando em mundos grosseiros, como a Terra, este ser espiritual, revestido dos vários corpos, quando sofre o fenômeno que denominamos como morte, na verdade, é imediatamente restituído (nem esse me parece o termo adequado, talvez exista outro mais apropriado) passa a viver na dimensão imediata que o seu próximo corpo habita.

Construamos um simples modelo para facilitar o entendimento.

 



 

Conforme a figura acima, visualizamos 8 círculos concêntricos, onde o menor deles bem no centro, representa o Espírito. Os demais sete círculos representariam corpos materiais, de diferentes densidades. Cada um desses corpos, por sua vez, habita respectivamente, sete diferentes dimensões físicas.

Numeremos o Espírito com o número 0 e os demais corpos e respectivas dimensões, de 1 a 7.

Então teremos um conjunto formado por 0 a 8.  Eis aí a criatura humana, o espírito (representado pelo número zero) envolto por seus sete corpos, cada um habitando uma das diferentes dimensões, seguindo o estabelecido pela lei de Deus. Muito resumidamente, cada um desses corpos, de acordo com sua composição e constituição material, habitará uma diferente dimensão apropriada e adequada às suas características, para se desenvolver. 

Portanto aqui na Terra, o nosso corpo físico habita um mundo externo e grosseiro, e seguindo nosso raciocínio, seu corpo físico, considerado o de número 7, é o mais externo e grosseiro habitat do Espírito.

Quando, por alguma razão, este corpo mais externo (número 7) deixa de existir na dimensão que lhe é peculiar, em sua forma que conhecemos, o Espírito imortal, sem sofrer qualquer processo de interrupção, afinal a vida é imortal, passará a manifestar-se na dimensão imediatamente próxima (que pode ser abaixo, acima, ao lado, etc) em que habite o corpo mais externo e que passou a ser o de número 6. A manifestação lúcida e consciente do espírito passará a ser na dimensão 6 e não mais na 7. Denominemos este processo descrito como etapa 1.

Os compostos e os constituintes do corpo 7, no qual a vida orgânica exauriu-se, serão restituídos devidamente à natureza não se perdendo absolutamente coisa alguma. Tudo, exatamente tudo, terá uma sublime destinação.  

E assim, sucessivamente, na etapa 2,3,4,5,6 e 7 com os demais seis corpos, até que o Espírito, encontre-se plenamente iluminado e puro, para que não necessite mais, de corpos para revestir-se.

Como diz Irmão José, nobre benfeitor de esferas sublimes, o Espírito puro é Puro Espírito.

Claro, e talvez desnecessário mencionar, que para cumprir todas as etapas, até ser um Espírito puro, o ser necessitará repetir muitas vezes cada um desses processos (reencarnação), respectivamente em diferentes mundos, de diferentes composições materiais (pluralidade dos mundos habitados).

Entendo que, talvez, o grande objetivo da encarnação do Espírito em seu périplo evolutivo praticamente infinito, seja tornar-se capaz de, efetiva e simultaneamente, existir consciente e lúcido em todas as dimensões da vida (em nosso exemplo, do 1 ao 7), como já o fez Jesus, tornando-se onipresente e adquirindo, em uma escala menor, o que Deus, nosso Pai o é em escala infinitamente maior. Todos nós, como filhos de Deus, em um determinado e longínquo tempo e aos poucos, passaremos a adquirir suas características. Mas calma! Isso levará períodos de tempo, praticamente incontáveis, enquanto isso, perseveremos na luta que liberta e emancipa.  

Enquanto essa consciência e lucidez não é obtida, o Espírito ao deixar uma dimensão (7) e passar a viver em outra (6), experimentará naturais dificuldades, pois ainda não se apossou destas realidades, que de fato, sempre o envolveram, porém em sua ignorância evolutiva, não foi capaz ainda de apreender.

Neste e em tantas outras situações, o Espírito “retorna” a existir na dimensão (7) de sua familiaridade, para que ele possa melhor se desenvolver e tentar compreender toda a maravilha da vida. Ai o renascimento espiritual em corpos físicos. 

Há! Quanto às outras dimensões ou esferas físicas, mas ainda não espirituais (1 a 5) que não mencionei, por enquanto, pode esquecer. Se pouco conhecemos da esfera física que presentemente habitamos e praticamente nada da que iremos habitar, por que querer saber ou entender de outras moradas que não temos palavras, ideias e muito menos cérebro para assimilar. Por hora o bom senso aconselha deixar prá lá. Pode ser muito perturbador esse esforço.

Procuremos fazer a parte que nos toca para nossa evolução e entender melhor o que nos cerca, porém com a compreensão que coisa alguma deixa de existir. Morrer é pobreza de linguagem, seu uso deve ser deixado de lado, é um verbo que jamais o conjugaremos em plenitude e é melhor ir esquecendo dele.

Viver é o verbo! E este sim, é para sempre! 

Referência: 

(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. Elias e João Batista. Refutação. Dezembro de 1863. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 519p.

 


  Por que Jesus pouco falou sobre reencarnação? Creio, sem sombra de dúvida, que o principal motivo de Jesus não se referir tão claramente...