Aspectos espirituais do Suicídio
Dados estatísticos recentes apontam que, anualmente, 720 mil
pessoas perecem pelo suicídio no Mundo, sendo 73% cometidos em
países de baixa e média renda. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio é
considerado a terceira principal causa de morte.
As pesquisas nesta área também apontam que para cada suicídio há
muitas outras pessoas que tentam o suicídio e que uma tentativa de suicídio
anterior é um importante fator de risco para o suicídio na população em geral.
Sem dúvida, estes são dados deveras preocupantes para as áreas de
saúde que trabalham nestas difíceis situações.
Acreditamos que estes dados sejam subestimados, pois os próprios
dados globais registrados pela OMS, que os consideram precários quanto à sua
disponibilidade e qualidade, abrangem apenas cerca de 80 países (40%) dos 194
inscritos nesta organização. Argumentam que a subnotificação e a classificação
incorreta sejam problemas maiores no caso do suicídio do que para a maioria das
outras causas de morte.
Não resta dúvida que isto pode ser um forte empecilho quando o
objetivo seja aumentar a conscientização sobre a importância do suicídio e das
tentativas de suicídio a fim de torná-los de alta prioridade na agenda global
de saúde pública.
A religião, a moral e todas as filosofias condenam o suicídio como
contrário às leis da Natureza. Todas nos dizem, em princípio, que ninguém tem o
direito de abreviar voluntariamente a vida.
A Bíblia menciona algumas pessoas que cometeram o auto extermínio:
Abimeleque (Juízes 9:54); Sansão (Juízes 16:29-31); Saul e o escudeiro (1
Samuel 31:3-6); Aitofel (2 Samuel 17:23); Zinri (1 Reis 16:18) e o mais
conhecido de todos, Judas o discípulo de Jesus (Mateus 27:5).
Belos ensinamentos encontramos na obra básica do Espiritismo, O
Livro dos Espíritos. Na questão 944, Kardec questiona:
“Tem o homem o
direito de dispor da sua vida?
R. “Não; só a Deus
assiste esse direito. O suicídio voluntário importa numa transgressão desta
lei.”
Aprendemos nesta obra que os espíritos sensivelmente perturbados,
apresentam uma sobre excitação cerebral, principalmente provocadas pelas decepções,
pelos infortúnios e afeições contrariadas, constituindo-se nas causas mais frequentes
de suicídio.
Falando sobre as consequências sofridas pelo espírito cuja desencarnação
foi provocado pelo suicídio, os Espíritos da codificação, na questão 957 de O
Livro dos Espíritos, nos esclarecem:
“Muito diversas são as consequências do
suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem
sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida
não pode escapar; é o desapontamento. Alguns expiam a falta
imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo
curso interromperam.”
Outro aprendizado importante é que no espírito de alguns suicidas
se produz uma espécie de repercussão que o Espírito, a seu mau grado, sente os
efeitos da decomposição do corpo físico, donde lhe resulta uma sensação cheia
de angústias e de horror, estado esse que pode perdurar pelo tempo que devia
durar a vida que sofreu interrupção.
Exemplificando, se eu entendi bem, uma pessoa que deveria viver
sobre a Terra, aproximadamente 70 anos e cometeu o suicídio aos 40 anos de
vida, permanecerá neste estado perturbatório algo em torno de 30 anos.
Isto explica porque, quando comparecem às reuniões mediúnicas, dos espíritos que desencarnaram pelo suicídio, a maioria fica surpreendido,
espantado e não acredita estar morto. Obstinadamente sustenta que não o está.
No entanto, vê o seu próprio corpo, reconhece que esse corpo é seu, mas não compreende
que se ache separado dele.
Fruto de uma desorientação religiosa, estes irmãos foram ensinados
a considerar a morte como sinônimo de destruição ou de aniquilamento. Aproximam-se de seus familiares que o velam nos serviços funerários, falam-lhes e
por eles não são percebidos nem ouvidos. Tal ilusão se prolonga até ao
completo desprendimento do perispírito do corpo físico hirto. Só então o
Espírito se reconhece como tal e compreende que não pertence mais ao número dos
encarnados sobre a Terra.
Nos dias de hoje temos assistidos, lamentavelmente, a violência
facilmente praticada por cônjuges que, descontentes com as vacilações e
fraquezas do(a) parceiro(a) de matrimônio, se veem no direito de tirar-lhe a
vida e, posteriormente se suicidando, encetando séculos de sofrimento pelos
crimes cometidos.
André Luiz, no magistral livro Evolução em Dois Mundos nos
explica a razão destes cruéis desatinos d’alma.
“Mal saídos do
regime poligâmico, os homens e as mulheres sofrem-lhe ainda as sugestões
animalizantes e, por isso mesmo, nas primeiras dificuldades da tarefa a que
foram chamados, costumam desertar dos postos de serviço em que a vida os situa,
alegando imaginárias incompatibilidades e supostos embaraços, quase sempre
simplesmente atribuíveis ao desregrado narcisismo de que são portadores. E com
isso exercem viciosa tirania sobre o sistema psíquico do companheiro ou da
companheira mutilados ou doentes, necessitados ou ignorantes, após
explorar-lhes o mundo emotivo, quando não se internam pelas aventuras do
homicídio ou do suicídio, espetaculares, com a fuga voluntária de obrigações
preciosas.”
Diga-se de passagem, fuga esta da qual não irão se safar enquanto
não houver pago ceitil por ceitil, no sublime ensinamento de Jesus.
Aliás, o próprio Jesus, há mais de vinte séculos ensinou-nos que
“todo aquele que comete o mal é escravo do mal” (João, 8:34)
O assunto é complexo e instigante, cabendo à Doutrina Espírita demonstrar,
pelo exemplo dos próprios espíritos que a ele sucumbiram, que o suicídio constitui
infração de uma lei moral e um ato tanto infeliz quanto ineficaz, pois em nada
ganha quem o pratica, não atinge seu verdadeiro objetivo e ainda se complica severamente, perante a Lei Divina.
Voltaremos ao tema! Enquanto
isso, reflitamos a respeito.
(*) Todos os grifos são meus.
Referências
(1) Suicide. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide.
Acesso em 15 Fevereiro 2026.
(2) Kardec, Allan. O Livro dos
Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed. Brasília.
Editora FEB, 1944. 494p.
(3) Luiz, André. Evolução em
dois mundos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 8ª
ed. Brasília. Editora FEB, 1985. 219p.