Fatalidade
- continuando o diálogo
- Posso
continuar com as perguntas?
R.
Sim, é claro. Este assunto sobre a fatalidade em nossas vidas é muito atrativo
e sempre deve ser estudado para sua melhor compreensão.
- O
conceito de fatalidade, segundo as orientações da Doutrina Espírita, de certa
forma, ainda é um tanto confuso, para mim. Poderia tentar aprofundar o tema,
melhor esclarecendo?
R.
Vamos tentar com muita satisfação. Citarei alguns exemplos, para auxiliar.
Todas
as leis que regem o conjunto dos fenômenos da Natureza têm consequências
necessariamente fatais, isto é, inevitáveis, e essa fatalidade é
indispensável à manutenção da harmonia universal. O homem, que sofre essas
consequências, está, pois, em alguns aspectos, submetido à fatalidade, em tudo
quanto não dependa de sua iniciativa. Assim, por exemplo, deve morrer
fatalmente; é a lei comum, à qual não pode subtrair-se e, em virtude
dessa lei, pode morrer em qualquer idade, quando chegar a sua hora; mas, se
apressa voluntariamente a sua morte, pelo suicídio ou por seus excessos, age em
virtude de seu livre-arbítrio, porque ninguém o pode constranger a fazê-lo.
Deve comer para viver: é a fatalidade; mas se comer além do necessário,
abusivamente, por livre escolha sua, poderá adoecer.
- Está
clareando o conceito...Poderia citar outros exemplos?
R. Pois
não. Em sua cela, o prisioneiro é livre de mover-se à vontade,
no espaço que lhe é concedido; mas as paredes que não pode transpor são para
ele a fatalidade que lhe restringe a liberdade. Para o soldado a disciplina é
uma fatalidade, pois o obriga a atos independentes de sua vontade, mas não é
menos livre em suas ações pessoais, pelas quais é responsável. Assim é com o
homem na Natureza. A Natureza tem as suas leis fatais, que lhe opõem uma
barreira, mas aquém da qual ele pode mover-se à vontade.
-
Nesta última resposta, você se referiu em especial, a Natureza. Mas, e quanto
às ações da individualidade de cada um, os acontecimentos da vida particular,
poderia dizer algo a respeito?
R.
Tendo o homem o seu livre-arbítrio, a fatalidade não participa de suas ações
individuais; quanto aos acontecimentos da vida privada, que por vezes
parecem atingi-lo fatalmente, têm duas fontes bem distintas: uns são
consequência direta de sua conduta na existência presente; muitas pessoas são
infelizes, doentes, enfermas por sua falta; muitos acidentes são resultado da
imprevidência; ele não pode queixar-se senão de si mesmo, e não da fatalidade
ou, como se diz, de sua má estrela. É a colheita após a semeadura.
- E os
outros? De onde provém?
R. Os
outros são completamente independentes da vida presente e, por isto mesmo,
parecem devidos a uma certa fatalidade; mas, ainda aqui, o Espiritismo nos
demonstra que essa fatalidade é apenas aparente, e que certas situações penosas
da vida têm sua razão de ser na pluralidade das existências. O Espírito as
escolheu voluntariamente antes de sua encarnação, como provações para o seu
adiantamento; elas são, pois, resultado do livre-arbítrio, e não da
fatalidade.
- Você
está querendo dizer, que mesmo nos casos de fatos ou circunstâncias “impostas”
pela providência Divina...
R.
Exatamente o que você está pensando...Mesmo nestes casos, em que se configura
na Terra, uma fatalidade para o espírito reencarnado, como expiação, ela se dá em
razão das más ações voluntariamente cometidas pelo homem numa precedente
existência, e não como consequência de uma lei fatal, pois ele poderia
tê-las evitado, agindo de outro modo.
- Se
bem entendi, devemos procurar a origem real da “fatalidade” e esta,
normalmente, mesmo sendo em existência anterior, foi fruto da liberdade de
escolha do espírito. Portanto não houve, de fato,
fatalidade.
R. Atente
para esta frase, meu caro irmão: “Em cada instante de nossa vida, estamos
recolhendo o que semeamos, dependendo da nossa sementeira de hoje a colheita
melhor de amanhã.”
-
Ótima, preciso mesmo refletir muito sobre ela.
R. Se
um acontecimento está no destino de um homem, ele se realizará, a despeito
de sua vontade, e será sempre para o seu bem; mas as circunstâncias da
realização dependem do uso que ele faça de seu livre-arbítrio, e muitas vezes
ele pode fazer redundar em seu prejuízo o que deveria ser um bem, se agir com
imprevidência, e se se deixar arrastar pelas paixões.
A
fatalidade é o freio imposto ao homem por uma vontade superior à
sua, mas jamais é um entrave ao exercício de seu livre-arbítrio, no que
concerne às suas ações pessoais.
- E
quanto à morte? Há fatalidade em todos os casos? Quero dizer, independente do
tipo de morte, sempre haverá fatalidade, ou seja, se morreu é porque tinha que
morrer. É assim?
R. Calma
lá! Claro que não é bem assim não. Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só
o instante da morte o é. Todos que estão encarnados na Terra, um dia deverão
desencarnar. Isto que é a fatalidade da morte. Agora quanto ao dia, mês, ano,
idade da pessoa que deverá morrer, em boa parte dos casos, pode-se atribuir a
imprudência. Em bom português, a maioria de nós, poderia viver mais tempo sobre
a Terra.
-
Xiii...poderia esclarecer melhor esta questão? Ela é muito polêmica, mesmo
entre os espíritas.
Sim,
vamos lá.
Há
muitos espíritos que retornam à espiritualidade em plena infância por pura
falta de recursos de subsistência e também por falta dos mais simples serviços
de saúde.
- Isso
eu concordo. Na medida em que um país se desenvolve aprimorando seus serviços
de saúde reduz-se drasticamente a mortalidade infantil. Isto, é um fato!
Esta afirmativa pode ser chocante para quem
imagina que tudo acontece por fatalidade divina, ou até pela vontade de Deus. Levada
às últimas consequências semelhante ideia nos isentaria de qualquer
responsabilidade envolvendo tanto a vida quanto à morte.
O
doente morre à mingua de socorro; vontade de Deus!
Transeuntes
morrem num tiroteio; vontade de Deus!
Dezenas
de pessoas morrem num atentado terrorista; vontade de Deus!
Milhares
morrem numa guerra; vontade de Deus!
E
por que não dizer que o indivíduo que tenta o suicídio e a mulher que pretende
abortar só conseguem seu objetivo porque é a vontade de Deus?
Nenhum
desses crimes, nenhuma dessas mortes, ocorre por iniciativa Divina. Não passam
é de contingências geradas pela insensatez humana.
Embora
muitas dessas tragédias possa ter uma origem cármica, representando
o resgate de velhos débitos, há aquelas que não estavam
programadas. Acontecem por pura imprudência.
Claro,
teríamos que analisar caso a caso! Mas ambas as situações acima referidas podem
ocorrer num planeta de expiações e provas.
No
livro Nosso Lar, André Luiz é considerado, pelo generoso Clarêncio, como
suicida inconsciente. Presume-se que ele poderia ter vivido mais tempo sobre a
Terra. A informação, com o devido esclarecimento, está no início do livro, bem
no capítulo 4. Vale a pena conferir.
Também
no livro Missionários da Luz, o personagem Manassés, em esclarecedor diálogo
com André Luiz, nos apresenta o conceito de completista. São os raros irmãos
que aproveitaram todas as possibilidades construtivas que o corpo terrestre
oferece.
Ele
chega a dizer que, por vezes, desprezamos cinquenta, sessenta, setenta per
cento e, frequentemente, até mais, de nossas possibilidades.
Refletindo
sobre estas duas passagens, que estão ao nosso alcance, na excelente obra de
André Luiz, chegamos à conclusão que pode-se sim, voltar à pátria espiritual
antes do tempo previsto.
- Confesso
que, embora, já tenha lido estas obras, não cheguei a refletir nestas
passagens, considerando os aspectos sobre a fatalidade. Não havia ainda pensado
por este prisma.
R. Pois
trate de pensar, porque é muito válido!
-
Alguma consideração para encerrarmos?
R. Eu
diria que não é da vontade de Deus que morram crianças em locais de carentes
recursos; excetuando-se as que partem atendendo a problemas cármicos a maioria
morre porque Deus não encontra pessoas que se disponham a agir como instrumento
de sua vontade para socorrê-las. Se a onipresença Divina se faz sentir em todas
as dimensões do Universo e em todas as manifestações da vida, atentemos que
Deus também está presente nos olhos tristes de uma criança carente, rogando-nos
que a ajudemos a viver. Basta para isso que superemos nossas milenares
tendências egoísticas.
(*) Todos os grifos são
nossos.
Referências
(1) Simonetti, R. Quem tem
medo da morte. 1ª edição. Editora Gráfica São João. 1987, 155p.
(2) Simonetti, R. Quem tem
medo dos espíritos. 1ª edição. Editora Gráfica São João. 1992, 140p.
(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. A
ciência da concordância dos números e a fatalidade. Julho de 1868. 4ª ed. Brasília. Editora FEB, 2004.